

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Cirurgia para espasticidade: guia completo
Seu braço fica dobrado sem você querer? A mão fecha e não abre? O pé vira para baixo e atrapalha a caminhada? Isso pode ser espasticidade, também chamada de rigidez muscular.
A boa notícia é que existe tratamento. Além do baclofeno e da fisioterapia, há outras opções, como a toxina botulínica (botox) e cirurgias que ajudam a mexer melhor, a sentir menos dor e a fazer as tarefas do dia a dia com mais facilidade.
Neste guia, escrito em linguagem simples, você vai entender o que é a espasticidade, como ela é descoberta e quais tratamentos existem.
- O que é: músculos rígidos que se contraem sozinhos, por causa de uma lesão no cérebro ou na medula espinhal.
- Tem cura? Não, mas tem tratamento: medicamentos, fisioterapia, botox e cirurgias.
- Quando operar? Quando os remédios e a fisioterapia não são suficientes.
- Por que não esperar? Tratar cedo reduz o risco de dor, feridas na pele e deformidades.
O que é espasticidade?
Espasticidade é quando os músculos ficam rígidos, tensos e difíceis de controlar. Ela causa contrações que você não escolhe fazer, como o punho fechado, o cotovelo dobrado ou o pé virado para baixo.
Por que isso acontece? Pense no cérebro como um chefe que dá ordens aos músculos. A ordem sai do cérebro, desce pela medula espinhal e pelos nervos e chega ao músculo, que se move de forma controlada.
Quando há uma lesão no cérebro ou na medula (por um AVC, um acidente ou uma doença), essa ordem se perde no caminho. Sem o "freio" do cérebro, os nervos que comandam o músculo passam a mandar sinais sozinhos, e o músculo fica contraído o tempo todo.
Resumindo: a espasticidade é consequência de um dano no sistema nervoso. Ela não é frescura nem falta de esforço, e tem tratamento.
Principais causas da espasticidade

A espasticidade aparece quando o cérebro ou a medula espinhal sofrem uma lesão. Veja as causas mais comuns:
Paralisia cerebral
Causa comum em crianças. Uma lesão no cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento, atrapalha o controle dos movimentos.
AVC (derrame)
Em adultos, acontece quando uma artéria entope ou arrebenta (como em um aneurisma) e o cérebro é lesionado.
Traumatismo na cabeça
Pancadas fortes, como em acidentes de carro ou moto e quedas, podem causar danos permanentes ao cérebro.
Esclerose múltipla
Doença em que o sistema de defesa do corpo ataca o sistema nervoso e provoca crises de rigidez muscular.
Lesão na medula
Um dano na coluna, principalmente na região do pescoço, interrompe os sinais entre o cérebro e os músculos.
Falta de oxigênio no cérebro
Situações como afogamento ou parada cardíaca podem lesionar o cérebro e deixar sequelas de movimento.
Sintomas da espasticidade: você se identifica?
Quanto mais destes sinais você reconhece, mais importante é procurar uma avaliação médica. Veja a lista abaixo:
Rigidez muscular
Os músculos ficam duros e difíceis de mover. Você precisa ajudar com a outra mão para abrir os dedos ou esticar o cotovelo?
Espasmos
Contrações que vêm sozinhas, às vezes com dor, principalmente em momentos de tensão. Quantas vezes por semana isso acontece?
Dificuldade para se movimentar
Caminhar, segurar objetos ou se vestir ficou mais difícil do que antes?
Postura anormal
O pé fica virado para baixo, o punho dobrado ou o braço colado ao corpo, e isso incomoda você.
Reflexos exagerados
Ao tocar o tendão, a reação é forte demais. Às vezes a mão ou a perna tremem e é preciso segurá-las para parar.
Dor e desconforto
A dor pode ser constante ou ir e vir, como se o músculo estivesse sempre em esforço.
Deformidades nas articulações
Com o tempo, músculos rígidos podem deixar as articulações tortas e travadas.
Percebeu dois ou mais desses sinais? Não espere piorar. Quanto mais cedo a avaliação, mais opções de tratamento você tem.
Diagnóstico da espasticidade: como ter certeza?

O diagnóstico é feito pelo médico, com conversa, exame físico e, quando preciso, exames de imagem. Veja como é o passo a passo:
- Exame clínico O médico avalia a rigidez dos músculos e os seus reflexos.
- Histórico médico Revisão da sua história de saúde para encontrar as possíveis causas.
- Eletroneuromiografia (ENMG) Teste que mede a atividade elétrica dos músculos e dos nervos.
- Ressonância magnética Imagem detalhada para ver lesões no cérebro ou na medula que possam causar a espasticidade.
- Tomografia computadorizada Mostra detalhes dos ossos e de outros tecidos.
- Escala de Ashworth modificada Mede o grau de rigidez do músculo.
- Medida de Independência Funcional (FIM) Avalia o quanto o paciente consegue fazer sozinho no dia a dia.
Leve seus exames e laudos antigos, a lista de remédios que você usa e um vídeo curto dos espasmos. Isso ajuda o médico a entender o seu caso.
Tratamento da espasticidade
Por que vale a pena tratar?

Tratar a rigidez muscular melhora a qualidade de vida, reduz a dor, aumenta a capacidade de movimento e evita feridas na pele e deformidades permanentes. O tratamento pode incluir medicamentos, fisioterapia e, nos casos mais difíceis, cirurgia. Estes são os principais objetivos:
Reduzir a rigidez
Diminuir a rigidez dos músculos para facilitar o movimento.
Melhorar a função motora
Ajudar você a se mover melhor e a fazer as atividades do dia a dia.
Corrigir deformidades
Ajustar posições tortas causadas pela rigidez.
Aliviar a dor
Reduzir a dor provocada pelos músculos rígidos.
Melhorar a qualidade de vida
Deixar a rotina mais fácil e confortável, para o paciente e para quem cuida dele.
Quais profissionais tratam a espasticidade?
O melhor resultado vem do trabalho em equipe. Cada profissional tem um papel importante no seu cuidado:
Neurologista
Faz a avaliação completa e entende a condição neurológica de cada paciente.
Fisioterapeuta
Avalia a rigidez e indica as terapias físicas que ajudam no movimento.
Terapeuta ocupacional
Adapta o tratamento às necessidades do paciente e ajuda nas atividades do dia a dia.
Neurocirurgião
Avalia se a cirurgia pode ser útil para reduzir a rigidez, corrigir deformidades, melhorar a função e controlar a dor.
Equipe interdisciplinar
Reúne vários profissionais para montar um plano de tratamento completo e adequado ao seu caso.
Tratamentos para espasticidade: quais são as opções?

1. Medicamentos. São geralmente o primeiro passo. Ajudam a diminuir a rigidez e a melhorar o movimento. Os mais usados são:
Baclofeno
Relaxa os músculos e reduz a rigidez. Pode causar sonolência e fraqueza.
Diazepam
Relaxante muscular da classe dos benzodiazepínicos. Pode causar dependência, sonolência e cansaço.
Tizanidina
Reduz a rigidez muscular. Em doses altas, pode causar queda de pressão.
Não pare nem troque o remédio por conta própria. Parar o baclofeno de uma vez pode ser perigoso. Converse sempre com o seu médico.

2. Botox (toxina botulínica). Quando a rigidez está concentrada em uma área, como a mão, o braço ou a perna, as injeções de botox podem ajudar muito. O efeito dura alguns meses e as aplicações precisam ser repetidas, por isso o botox costuma ser combinado com fisioterapia.
3. Cirurgias. Se os medicamentos e a fisioterapia não forem suficientes, existem várias cirurgias que podem ajudar. Cada uma é indicada para um tipo de problema:
Rizotomia dorsal seletiva (DREZotomia)
Corta nervos específicos na coluna e preserva as áreas saudáveis. Costuma ser indicada para a rigidez que afeta as pernas.
Neurectomias (transferência e secção de nervos)
Reorganiza as conexões entre os nervos e os músculos. Costuma funcionar bem porque os músculos não perdem a força.
Bomba de baclofeno intratecal
Dispositivo que coloca o remédio direto na medula espinhal e controla a rigidez com uma dose menor do que a do comprimido.
Transferência de músculos e tendões
Alonga, corta ou muda tendões de lugar para melhorar a função. Ajuda quem ainda movimenta a mão, o punho ou o pé, mas tem um deles muito intenso. Dá mais equilíbrio ao movimento.
Pé caído: transferência do tendão tibial posterior
Em alguns casos, esse tendão é levado para a parte da frente do pé para ajudar a levantá-lo. Pode ser associada a um parafuso percutâneo (artrorise subtalar, o "calcâneo-stop") que protege o retropé.
Será que alguma dessas opções serve para você?
Cada caso é único. A cirurgia só é indicada depois de uma avaliação completa, e nem sempre é necessária.
Agendar uma consulta
Como escolher o melhor tratamento?
Não existe um tratamento único para todos. O médico avalia alguns pontos importantes antes de indicar o melhor caminho para você:
Gravidade da espasticidade
Quanto a rigidez atrapalha o seu dia a dia.
Resposta a tratamentos anteriores
Como você reagiu aos remédios, à fisioterapia e ao botox ajuda a planejar o próximo passo.
Idade
Pacientes mais jovens podem ter resultados melhores com algumas cirurgias, como a transferência de nervo ou de tendão, porque o cérebro se adapta mais.
Objetivos funcionais
O que você espera melhorar: andar, segurar objetos, cuidar da higiene ou sentir menos dor.
Reabilitação e terapia ocupacional depois da cirurgia

Depois da cirurgia, a reabilitação e a terapia ocupacional são fundamentais para a sua recuperação. A reabilitação trabalha a força e o movimento. A terapia ocupacional ajuda você a fazer as tarefas do dia a dia com mais independência.
Tratar a espasticidade pode ser um desafio, mas com um plano feito sob medida para você e uma equipe unida, é possível melhorar a qualidade de vida.
Recuperar a força
Exercícios para fortalecer os músculos e alongamentos para reduzir a rigidez e ganhar flexibilidade.
Melhorar a mobilidade
Uso de andador ou bengala, quando preciso, e treino para melhorar a forma de caminhar.
Prevenir complicações
Acompanhamento e exercícios sob medida para evitar rigidez e deformidades nas articulações.
Avaliação funcional
Identifica as suas dificuldades no dia a dia e monta um plano de tratamento sob medida.
Treino das atividades diárias
Ensina a usar dispositivos que ajudam a se vestir e a cozinhar, além de exercícios para a coordenação fina.
Adaptações da casa
Barras de apoio, rampas e tecnologias assistivas para facilitar a comunicação e a locomoção.
Dicas úteis para o dia a dia com espasticidade
Pequenos cuidados diários ajudam a controlar a rigidez e a evitar complicações. Combine tudo com a sua equipe de saúde.
Alongue todos os dias
Faça os alongamentos devagar, do jeito que o fisioterapeuta ensinou. Nunca force até doer.
Mude de posição
Troque de posição a cada poucas horas. Isso evita feridas na pele e rigidez fixa.
Cuide da pele
Mantenha limpas e secas as áreas de dobra, como a palma da mão e a axila.
Fique atento aos gatilhos
Dor, infecção urinária, intestino preso, roupa apertada e unha encravada podem piorar os espasmos. Tratar o gatilho ajuda.
Use órteses e talas
Se o fisioterapeuta indicar, use no horário certo. Elas ajudam a manter a posição correta.
Anote e filme os espasmos
Registre quando acontecem e quanto duram. Mostre ao médico na consulta.
Tome os remédios no horário
Siga a dose indicada e não pare o medicamento de repente.
Quem cuida também precisa de cuidado
Divida as tarefas, peça ajuda e reserve tempo para descansar.
Procure atendimento médico rápido se houver piora súbita da rigidez, febre, feridas na pele que não melhoram ou dor forte nova.
Se aparecer fraqueza repentina, boca torta ou fala enrolada, pode ser um AVC. Ligue 192 (SAMU) na hora.
Perguntas frequentes sobre espasticidade
Reunimos as dúvidas mais comuns de pacientes e familiares. Clique em cada pergunta para ver a resposta.
O que é espasticidade muscular?
É quando os músculos ficam rígidos e tensos, o que dificulta o movimento. Acontece porque os sinais que o cérebro envia aos músculos foram prejudicados por uma lesão no cérebro ou na medula espinhal.
Quais são os sintomas da espasticidade?
Músculos rígidos ou duros, espasmos (contrações que vêm sozinhas), dificuldade para mover partes do corpo, postura anormal, reflexos exagerados e dor.
Espasticidade tem cura?
Não tem cura, mas tem tratamento. O tratamento pode incluir medicamentos, fisioterapia, injeções de botox e, em alguns casos, cirurgia para melhorar a mobilidade e reduzir a dor.
Qual médico trata a espasticidade?
O neurologista e o neurocirurgião tratam a espasticidade. Eles trabalham junto com fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.
Quem tem espasticidade consegue andar?
Muitas pessoas conseguem, mas pode ser mais difícil e algumas precisam de apoio, como bengala, andador ou órtese. O tratamento e a fisioterapia ajudam a melhorar a caminhada.
Quando a cirurgia para espasticidade é indicada?
Em geral, quando os medicamentos, a fisioterapia e o botox não são suficientes, ou quando a rigidez causa dor, deformidades ou dificuldade nos cuidados diários. Só o médico, depois de avaliar o seu caso, pode dizer se a cirurgia é indicada.
O botox resolve a espasticidade?
O botox ajuda principalmente quando a rigidez está concentrada em uma área do corpo. O efeito dura alguns meses, então as aplicações precisam ser repetidas e costumam ser combinadas com fisioterapia.
A espasticidade piora com o tempo?
Sem tratamento, a rigidez pode causar dor, feridas na pele e deformidades nas articulações. Por isso, quanto mais cedo começa o tratamento, melhor.
Quer entender o melhor tratamento para o seu caso?
Cada paciente é diferente. Uma avaliação individual mostra quais opções fazem sentido para você ou para o seu familiar.
Agendar uma consultaEste conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Não existe garantia de resultado, e cada caso exige avaliação individual.
Dr. Thomas Marcolini, neurocirurgião que atua em nervos periféricos.
CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510
CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003
- Trompetto C, et al. Pathophysiology of spasticity: implications for neurorehabilitation. Biomed Res Int. 2014. doi.org/10.1155/2014/354906
- Bohannon RW, Smith MB. Interrater reliability of a modified Ashworth scale of muscle spasticity. Phys Ther. 1987;67(2):206-207. doi.org/10.1093/ptj/67.2.206


