Hospital São Camilo: neurocirurgia de nervos periféricos em SP
Médico especialista em Nervos Periféricos no Brasil.

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos

Thomas Marcolini • November 2, 2026

Tive AVC e arrasto o pé para andar: o que ainda dá para melhorar

Faz tempo que você ouve a mesma frase: "agora é sequela, é conviver."

E a vida foi se ajustando em volta disso. Você anda apoiado na parede, joga a perna para o lado a cada passo, tropeça no batente da porta. O pé aponta para baixo e vira para dentro, então você pisa na lateral. A órtese que mandaram fazer nunca encaixou direito e vive largada num canto. O calçado de um pé só gasta na ponta. E tem a dor, que ninguém sabe explicar de onde vem.

Vale perguntar de novo. Sequela de AVC no pé tem, sim, tratamento — inclusive cirúrgico. Não é para todo mundo, e não devolve a perna de antes. Mas para muita gente muda exatamente aquilo que atrapalha o dia inteiro: apoiar o pé no chão, calçar a órtese, andar sem medo de cair.
Já tratei mais de 300 pacientes com dificuldade para levantar o pé, incluindo muitos casos de pé equino depois do AVC.

Paciente andando com apoio em corredor de reabilitação após AVC, com marcha alterada pelo pé equino

Primeiro, entenda: não é "pé caído" no sentido comum

Essa confusão explica por que tanto paciente recebe a orientação errada.

Pé caído por lesão de nervo

O fio que leva a ordem até o músculo se rompeu. O músculo não recebe comando nenhum e o pé fica mole, solto, pendendo. É o que acontece em acidentes e em algumas cirurgias.

Pé equino depois do AVC

Aqui os nervos da perna estão inteiros. O que mudou foi o comando lá em cima: o cérebro perdeu o controle fino sobre aqueles músculos. O resultado é o oposto do anterior — a musculatura da panturrilha fica contraída demais, puxando o pé para baixo e para dentro o tempo todo. Isso se chama espasticidade.

Diferença entre pé caído por lesão de nervo e pé equino espástico, explicada pelo Dr. Thomas Marcolini

Por que o pé foi piorando com o tempo

Um detalhe que quase ninguém explica: o pé equino piora sozinho se ficar sem cuidado.

Um músculo que passa meses encurtado vai perdendo comprimento. O tendão de Aquiles retrai. Aí o pé deixa de ser apenas "puxado para baixo" e passa a ficar preso naquela posição — mesmo com a pessoa relaxada, mesmo dormindo.

Quando isso acontece, aparecem as consequências que você conhece: a órtese não entra mais, o calcanhar não toca o chão, a pele da lateral do pé sofre com o apoio errado, e a dor aumenta.

Boa notícia: mesmo o pé já retraído tem tratamento. Mas quanto mais cedo, mais simples.

O que se pode fazer

Do mais simples ao mais definitivo, geralmente combinados:

  • Alongamento diário e fisioterapia — a base de tudo, em qualquer fase.
  • Órtese adequada — mantém a posição, dá segurança e evita que o pé retraia mais.
  • Toxina botulínica — relaxa temporariamente o músculo que puxa demais. Ajuda muito e também serve como teste: mostra o que aconteceria com o pé se aquele puxão diminuísse.
  • Neurectomia parcial — reduz de forma mais duradoura a espasticidade, diminuindo o excesso de sinal nervoso que mantém o músculo contraído.
  • Alongamento cirúrgico do tendão de Aquiles — libera o pé que já está preso e permite que o calcanhar volte a encostar no chão.
  • Transferência de tendão — empresta um tendão que funciona para ajudar a levantar o pé e corrigir o desvio para dentro, deixando o apoio mais estável.

Quando a cirurgia entra no plano: a indicação cirúrgica é considerada quando o tratamento conservador (fisioterapia, órtese, toxina botulínica) não é mais suficiente e já existe retração forte do calcanhar — ou seja, uma deformidade instalada, e não apenas o músculo "duro".

O objetivo, dito com honestidade: não é voltar a andar como antes do AVC. É o pé apoiar direito no chão, a órtese encaixar, os tropeços diminuírem, a dor melhorar e a caminhada ficar segura. Para quem convive com isso todo dia, essa diferença é enorme.

Homem caminhando com apoio de bengala e órtese no tornozelo, usando o corredor de casa como suporte
Quero agendar minha avaliação

Caso clínico

Paciente de 55 anos, cinco anos após o AVC

Ela ainda anda sozinha — e é exatamente por isso que muitos diriam que "está bem". Mas o quadro vinha piorando aos poucos: o pé foi ficando cada vez mais apontado para baixo (pé equino), e o joelho passou a esticar além da conta a cada passada (recurvato de joelho). O resultado no dia a dia era o mais assustador de todos os sintomas: em determinados momentos da caminhada, ela sentia que era jogada para frente, de repente — consequência direta da ponta do pé travada para baixo, que tira o apoio estável do calcanhar e empurra o corpo adiante no meio do passo.

Não era fraqueza que impedia a marcha. Era o desequilíbrio entre um músculo contraído demais na panturrilha e um joelho compensando esse desalinhamento a cada passo — o retrato clássico do pé equino espástico, cinco anos depois do AVC, quando muita gente já foi convencida de que "não tem mais o que fazer".

A conduta combinou dois procedimentos: alongamento do calcanhar (tendão de Aquiles), para soltar o pé que estava sendo puxado para baixo, e transferência de tendão com correção da extensão da perna, para resolver o recurvato de joelho que a fazia sentir-se jogada para frente a cada passo. O resultado ajudou muito na marcha dela — andar deixou de ser um risco a cada passo e voltou a ser algo em que ela podia confiar.

Como saber se vale a pena marcar uma avaliação

Faça estes três testes em casa. Se responder sim a qualquer um, vale a consulta:

1. O teste do calcanhar

De pé, com o joelho esticado, o calcanhar do lado afetado encosta no chão? Se ele fica no ar, ou se você só consegue apoiá-lo dobrando o joelho, existe retração para tratar.

2. O teste do sapato

Olhe a sola dos dois calçados. Se um deles gasta na ponta ou na lateral e o outro não, o seu pé está apoiando errado a cada passo — e isso tem correção.

3. O teste da órtese

A sua órtese encaixa e você usa? Órtese que "não serve" quase nunca é problema da órtese: é o pé que mudou de forma.

E some a isso: dor no pé ou na panturrilha, ferida ou calo em ponto de apoio errado, quedas ou quase-quedas frequentes.

Profissional de saúde examinando o pé e tornozelo de paciente idosa, avaliando o encaixe da órtese

O que fazer a partir de hoje

  1. Alongue o calcanhar todos os dias. Peça ao fisioterapeuta o alongamento do tendão de Aquiles e faça sem falta, inclusive nos dias em que não tem fisioterapia. É o que segura a piora.
  2. Volte a usar a órtese — ou providencie uma que sirva. Ela não é só para andar: é o que impede o pé de retrair mais.
  3. Cuide da pele do pé. Confira todos os dias os pontos de apoio, procurando vermelhidão, calo ou ferida. Onde a sensibilidade está alterada, o aviso não chega.
  4. Grave a sua caminhada. Uma vez por mês, peça para alguém filmar você andando dez passos, de lado e de frente, com o mesmo calçado. Guarde na mesma pasta. É a forma mais confiável de saber se está piorando — e o material mais útil que você pode levar à consulta.
  5. Leve tudo na avaliação. Vídeos, a órtese (mesmo a que não serve) e os calçados mais usados. Eles contam a história do seu pé melhor que qualquer relato.

Perguntas que os pacientes mais fazem

Já faz anos do meu AVC. Ainda dá?
Nesse caso o tempo pesa muito menos do que no pé caído por lesão de nervo. Aqui não estamos esperando nervo nenhum crescer — estamos corrigindo o desequilíbrio e a retração. Por isso pacientes de anos atrás continuam sendo candidatos à avaliação.
Vou voltar a andar normal?
A meta é andar melhor e com segurança, com o pé apoiando corretamente. Muitos deixam de arrastar o pé e de precisar de apoio o tempo todo. Prometer "como antes" seria desonesto.
A cirurgia vai me deixar mais fraco?
A ideia é reequilibrar, não remover força. Uma parte do planejamento é justamente definir o que pode ser aproveitado sem prejudicar o que já funciona.
Toxina botulínica resolve sozinha?
Ajuda bastante, e em alguns casos é o suficiente. O efeito é temporário e precisa ser repetido. Quando o pé já está retraído, ela sozinha não desfaz o encurtamento.
Isso serve só para AVC?
Não. O mesmo raciocínio vale para pé equino após tempo prolongado de UTI, lesão de coluna e outras condições neurológicas. Veja também Tratamento para Pé Equino.
Meu neurologista disse que era sequela. Ele errou?
Não necessariamente — sequela neurológica é isso mesmo, e o AVC em si não se desfaz. O que muitas vezes falta é a informação de que o pé, mecanicamente, ainda pode ser corrigido. São duas conversas diferentes.

O resumo, em três linhas

  1. Depois do AVC o problema costuma ser pé equino por espasticidade — o pé é puxado para baixo, não é falta de nervo.
  2. Existe tratamento em qualquer fase, e o tempo aqui pesa menos do que nas lesões de nervo.
  3. A meta é concreta: calcanhar no chão, órtese encaixando, menos tropеços e menos dor.

Se você arrasta o pé e já ouviu que não havia mais nada a fazer, vale uma segunda opinião com quem trata isso.

Conheça o Dr. Thomas Prefiro fazer uma teleconsulta
Close de pernas e pés caminhando em corredor, ilustrando marcha após tratamento do pé equino

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Dr. Thomas Marcolini, especialista em nervos periféricos

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