Hospital São Camilo: neurocirurgia de nervos periféricos em SP
Médico especialista em Nervos Periféricos no Brasil.

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos

Por Dr. Thomas Marcolini • April 1, 2022

Por que a síndrome do túnel do carpo piora à noite? Causas, diagnóstico e como aliviar

Mão segurando o punho com dor e formigamento, sintoma da síndrome do túnel do carpo que piora à noite

“Doutor, durante o dia até que vai bem… mas é só deitar que começa o formigamento, e eu acordo com a mão dormente.”


Essa é uma das frases que mais escuto no consultório. Acordar de madrugada com a mão formigando, dormente ou doendo — e precisar sacudir a mão para ela “voltar ao normal” — é um sinal muito típico da síndrome do túnel do carpo.


Neste artigo, explico em linguagem simples por que a síndrome do túnel do carpo piora à noite, quais outros problemas causam sintomas parecidos, quais exames ajudam a diferenciar e, principalmente, o que você pode fazer hoje mesmo para dormir melhor.

Resposta rápida

À noite, o punho costuma ficar dobrado durante o sono, o líquido do corpo se redistribui para os braços e as mãos ficam paradas por horas. Tudo isso aumenta a pressão dentro do túnel do carpo e comprime o nervo mediano — por isso o formigamento, a dormência e a dor acordam a pessoa.

A medida simples que mais ajuda é usar uma tala de punho em posição neutra para dormir. Mas o diagnóstico precisa ser confirmado por um médico, porque outras doenças causam sintomas parecidos.

O que é a síndrome do túnel do carpo?

O túnel do carpo é um canal estreito na região do punho. O “chão” e as paredes são formados por pequenos ossos (os ossos do carpo) e o “teto” é um ligamento firme, o ligamento transverso do carpo. Por dentro desse canal passam nove tendões que dobram os dedos e o nervo mediano, responsável pela sensibilidade do polegar, do indicador, do dedo médio e de metade do anelar.


Quando a pressão dentro desse canal aumenta, o nervo fica comprimido. A síndrome do túnel do carpo é a compressão de nervo mais comum do corpo e aparece com mais frequência em mulheres entre 40 e 60 anos, gestantes, pessoas com diabetes, hipotireoidismo ou artrite reumatoide e em quem faz movimentos repetitivos e com força com as mãos.


Sintomas mais comuns

  • Formigamento e dormência no polegar, indicador e dedo médio (o dedo mínimo geralmente fica de fora);
  • Dor no punho ou na mão, que às vezes sobe para o antebraço;
  • Acordar à noite e precisar sacudir a mão para melhorar;
  • Formigamento ao segurar o celular, dirigir, ler ou usar secador de cabelo;
  • Nos casos mais avançados: perda de força para pinçar, deixar objetos caírem e afinamento do músculo da base do polegar.

Por que a síndrome do túnel do carpo piora à noite? 6 motivos

A piora noturna não é “coisa da sua cabeça”. Ela tem explicação física — e entender cada motivo ajuda a saber exatamente o que fazer para aliviar.

1

Punho dobrado durante o sono

Muita gente dorme com as mãos dobradas, encolhidas embaixo do travesseiro ou do rosto. Com o punho dobrado para dentro ou muito esticado para trás, a pressão dentro do túnel do carpo aumenta várias vezes em relação à posição reta.

2

Líquido que se acumula nos braços

Ao deitar, o líquido que durante o dia fica mais nas pernas se espalha pelo corpo, inclusive para braços e mãos. Esse leve inchaço ocupa espaço em um canal que já está apertado.

3

Mãos paradas por horas

De dia, o movimento dos músculos funciona como uma “bomba” que ajuda a circulação e a drenagem do inchaço. Dormindo, essa bomba quase para e a pressão sobre o nervo aumenta.

4

Menos sangue chegando ao nervo

Durante o sono a pressão arterial cai naturalmente. Um nervo que já está comprimido recebe ainda menos sangue e oxigênio — e responde com formigamento, dormência e dor.

5

Dormir em cima do braço

Deitar de lado sobre o braço, ou com o braço por baixo do travesseiro, comprime ainda mais o membro e piora os sintomas.

6

Não usar a tala (órtese)

Sem a tala, o punho dobra sozinho durante a noite. A órtese mantém o punho reto e é uma das medidas simples com melhor resultado para a piora noturna.

Quem tem mais chance de sentir essa piora noturna?

Algumas situações deixam o túnel do carpo mais “apertado” ou o nervo mais sensível, e por isso a piora à noite costuma ser mais intensa em quem tem:


  • Gravidez ou retenção de líquido (inchaço nas mãos e nos pés);
  • Diabetes ou hipotireoidismo;
  • Artrite reumatoide ou outras inflamações nas articulações;
  • Sobrepeso;
  • Trabalho ou hobbies com movimentos repetitivos, força com as mãos ou ferramentas que vibram;
  • Uso prolongado do celular e do computador com o punho dobrado.
Mulher dormindo com as mãos dobradas sob o rosto, posição que piora a síndrome do túnel do carpo à noite

Nem todo formigamento noturno é túnel do carpo: como diferenciar

Outras doenças também causam mão dormente, inclusive à noite. Confundir um diagnóstico com outro é um dos motivos mais comuns de tratamentos que não funcionam — e até de cirurgias que não resolvem o problema.


Dica para observar em casa: repare quais dedos formigam e em que posição o sintoma aparece. Essa informação ajuda muito o médico na consulta. Veja as principais diferenças:

Síndrome do túnel do carpo (nervo mediano no punho)

Onde formiga ou dói: polegar, indicador, dedo médio e metade do anelar.

Pistas: piora à noite e com o punho dobrado; melhora ao sacudir a mão; o dedo mínimo geralmente fica normal.

Síndrome do túnel cubital (nervo ulnar no cotovelo)

Onde formiga ou dói: dedo mínimo e metade do anelar.

Pistas: piora ao dormir com o cotovelo dobrado ou ao apoiar o cotovelo na mesa ou na janela do carro; pode haver fraqueza nos músculos da mão.

Saiba mais sobre o túnel cubital

Hérnia de disco no pescoço (radiculopatia cervical)

Onde formiga ou dói: dor que começa no pescoço ou no ombro e desce pelo braço; os dedos afetados variam conforme a raiz comprimida.

Pistas: piora ao mexer, girar ou inclinar o pescoço; costuma pegar o braço inteiro, e não só a mão.

Síndrome do desfiladeiro torácico

Onde formiga ou dói: braço e mão, principalmente do lado do dedo mínimo, com dor no ombro e no pescoço.

Pistas: piora com os braços levantados (pentear o cabelo, estender roupa, trabalhar acima da cabeça).

Saiba mais sobre o desfiladeiro torácico

Polineuropatia (diabetes, falta de vitamina B12, álcool)

Onde formiga ou dói: as duas mãos e, quase sempre, também os pés — o famoso formigamento “em bota e luva”.

Pistas: não respeita o território de um único nervo e, na maioria das vezes, começa pelos pés.

Síndrome do pronador (nervo mediano no antebraço)

Onde formiga ou dói: os mesmos dedos do túnel do carpo e também a palma da mão.

Pistas: dor no antebraço que piora com esforço; costuma piorar menos à noite.

Tendinites e artrose

Onde formiga ou dói: dor localizada nas juntas ou nos tendões do punho e dos dedos.

Pistas: dor ao movimentar, rigidez pela manhã e inchaço nas articulações, sem dormência verdadeira.

Importante: é possível ter mais de um problema ao mesmo tempo — por exemplo, túnel do carpo junto com compressão no pescoço (a chamada “dupla compressão”). Por isso a avaliação completa faz tanta diferença.

Vídeo

Túnel do carpo ou dor nas juntas?

Neste vídeo curto, o Dr. Thomas Marcolini explica a diferença entre a dor do túnel do carpo e a dor nas articulações — e por que isso muda o tratamento.

Exames que ajudam a diferenciar e confirmar o diagnóstico

O diagnóstico começa na consulta, com uma conversa detalhada e o exame físico. Alguns testes simples são feitos no consultório, como o teste de Phalen (manter os punhos dobrados por cerca de 1 minuto para ver se o formigamento aparece) e o sinal de Tinel (leves batidas sobre o nervo no punho, que provocam choque nos dedos).


Os exames complementam essa avaliação. Nenhum deles, sozinho, substitui o exame feito pelo médico:

Eletroneuromiografia (ENMG)

Mede a velocidade dos sinais elétricos nos nervos e a resposta dos músculos. Confirma a compressão, mostra a gravidade (leve, moderada ou grave) e ajuda a diferenciar de problemas no pescoço e de polineuropatia.

Quando é pedido: é o exame mais usado para confirmar o diagnóstico e planejar o tratamento.

Ultrassonografia do punho

Mostra o nervo mediano inchado na entrada do túnel e pode revelar cistos, tendinites ou variações anatômicas. É rápida, indolor e sem radiação.

Quando é pedido: para complementar a ENMG ou avaliar a causa da compressão.

Ressonância magnética e neurografia

Imagens detalhadas do nervo e das estruturas ao redor.

Quando é pedido: em casos atípicos, suspeita de tumor de nervo, sintomas que voltaram após cirurgia ou dúvida sobre o local da compressão.

Ressonância da coluna cervical

Avalia hérnia de disco e compressão das raízes nervosas no pescoço.

Quando é pedido: quando a dor começa no pescoço ou o exame sugere problema na coluna.

Exames de sangue

Glicemia e hemoglobina glicada (diabetes), TSH (tireoide), vitamina B12 e, às vezes, exames reumatológicos.

Quando é pedido: para encontrar doenças que favorecem a compressão do nervo ou que imitam o túnel do carpo.

O que fazer para aliviar o túnel do carpo à noite: 10 dicas práticas

Estas medidas ajudam bastante nos casos leves a moderados e também enquanto você aguarda a avaliação médica:

1

Use tala de punho para dormir

Escolha uma órtese que deixe o punho reto(posição neutra), sem dobrar para cima nem para baixo. Use todas as noites por pelo menos 4 a 6 semanas. É a medida sem cirurgia com melhor resultado para a piora noturna.

2

Mude a posição de dormir

Prefira dormir de barriga para cima ou de lado sem apoiar o peso sobre o braço. Evite dormir com as mãos dobradas embaixo do travesseiro ou do rosto.

3

Apoie o braço num travesseiro

Deixe o braço ao lado do corpo, apoiado num travesseiro, com o cotovelo levemente esticado. Isso ajuda a diminuir o inchaço e a pressão sobre o nervo.

4

Acordou formigando? Faça assim

Sente-se, deixe o braço pender ao lado do corpo, sacuda a mão suavemente e abra e feche os dedos algumas vezes. Evite massagens fortes no punho.

5

Exercícios de deslizamento

Os exercícios de deslizamento do nervo e dos tendões ajudam o nervo a se mover melhor dentro do túnel. Faça com calma, sem forçar até doer (veja o vídeo abaixo).

6

Pausas durante o dia

A cada 30 a 40 minutos de digitação, celular ou trabalho manual, pare 1 minuto: alongue os dedos e o punho e relaxe os ombros.

7

Ajuste o computador

Mantenha o punho reto, com teclado e mouse na altura do cotovelo. Não apoie o peso da mão na base do punho enquanto digita.

8

Celular com moderação à noite

Segurar o celular por muito tempo com o punho dobrado, principalmente antes de dormir, piora os sintomas. Use um apoio ou alterne as mãos.

9

Cuide das doenças de base

Manter o diabetes e a tireoide controlados, reduzir o sal quando há retenção de líquido e perder peso quando há sobrepeso diminui a pressão sobre o nervo.

10

Não se automedique

Anti-inflamatórios ajudam pouco no túnel do carpo e podem ter efeitos colaterais. Suplementos e vitaminas só com orientação médica. A infiltração com corticoide pode aliviar alguns casos, mas precisa ser indicada pelo médico.

Vídeo

3 exercícios para aliviar a síndrome do túnel do carpo

O Dr. Thomas Marcolini mostra, passo a passo, exercícios simples para fazer em casa.

Atenção: se algum exercício aumentar a dor ou o formigamento, pare e converse com seu médico.

Sinais de alerta: procure um médico logo se

  • O formigamento ficou constante, e não só à noite;
  • Você sente fraqueza na mão ou passou a deixar objetos caírem;
  • O músculo da base do polegar está mais fino(afundado);
  • Os sintomas não melhoram após 4 a 6 semanas de tala e cuidados;
  • A dor ou o formigamento atrapalham o sono quase todas as noites;
  • O formigamento começou depois de uma queda ou fratura no punho;
  • Há formigamento nas duas mãos e também nos pés.

Emergência: fraqueza súbita de um lado do corpo, boca torta ou dificuldade para falar exigem atendimento imediato no pronto-socorro (pode ser AVC).

Por que procurar um médico faz diferença

A compressão do nervo mediano costuma ser progressiva. No começo, os sintomas vêm e vão, principalmente à noite. Com o tempo, a dormência pode ficar constante e o nervo começa a perder fibras — e essa perda nem sempre se recupera por completo, mesmo depois do tratamento.


Um médico com experiência em nervos periféricos ajuda você a:


  • Ter o diagnóstico certo, diferenciando o túnel do carpo de problemas no pescoço, no cotovelo ou de polineuropatia;
  • Saber a gravidade da compressão, com exame físico e eletroneuromiografia;
  • Tratar no momento certo: tala, ajustes na rotina e, em casos selecionados, infiltração. Quando a compressão é moderada a grave ou não melhora com essas medidas, a cirurgia de liberação do túnel do carpo passa a ser indicada;
  • Evitar cirurgias desnecessárias ou feitas no lugar errado.


A cirurgia do túnel do carpo é um procedimento curto, geralmente feito com anestesia local ou regional, e o paciente vai para casa no mesmo dia. Muitos pacientes percebem melhora do formigamento noturno nas primeiras semanas, mas a recuperação varia de pessoa para pessoa e depende da gravidade e do tempo de compressão do nervo.


Leia também: como dormir com a síndrome do túnel do carpo e tratamento da síndrome do túnel do carpo em Curitiba.

Perguntas frequentes

Por que acordo com a mão dormente?

Pode ser síndrome do túnel do carpo, principalmente se o formigamento atinge o polegar, o indicador e o dedo médio. Mas também pode ser compressão do nervo ulnar no cotovelo, problema no pescoço ou apenas dormir em cima do braço. Se acontece com frequência, vale procurar avaliação.

Sacudir a mão ao acordar é sinal de túnel do carpo?

É um sinal bem característico: muitas pessoas com túnel do carpo melhoram ao sacudir a mão. Ele ajuda na suspeita, mas não confirma o diagnóstico sozinho — o exame médico e a eletroneuromiografia são necessários.

Qual a melhor posição para dormir com túnel do carpo?

De barriga para cima ou de lado, sem apoiar o peso do corpo sobre o braço, com os punhos retos. O ideal é usar uma tala de punho em posição neutra durante a noite.

Preciso usar a tala de dia também?

Na maioria dos casos, o uso noturno é o mais importante. De dia, a tala pode ser usada em atividades que pioram os sintomas, conforme orientação médica.

Túnel do carpo tem cura sem cirurgia?

Casos leves, especialmente na gravidez ou ligados a fatores passageiros, podem melhorar com tala, ajustes na rotina e tratamento da causa. Casos moderados a graves, ou que não melhoram com essas medidas, costumam precisar de cirurgia.

Qual exame confirma a síndrome do túnel do carpo?

A eletroneuromiografia, junto com o exame clínico, é o principal exame. A ultrassonografia do punho ajuda em muitos casos, e a ressonância fica para situações específicas.

O túnel do carpo na gravidez passa?

É comum na gravidez por causa da retenção de líquido e, na maioria das vezes, melhora nas semanas ou meses após o parto. A tala noturna é o tratamento principal nesse período.

O que acontece se eu não tratar?

Nos casos que progridem, a dormência pode ficar permanente, com perda de força para pinçar e afinamento do músculo da base do polegar. Quanto antes for avaliado, maiores as chances de boa recuperação.

Sobre o autor

Dr. Thomas Ribeiro Marcolini

Neurocirurgião que atua em nervos periféricos. Atende em Curitiba e em São Paulo, e também por teleconsulta, pacientes com formigamento, dor e perda de força causados por compressões e lesões de nervos.

CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510 · CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003

Aviso: este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual. Em caso de sintomas, procure um médico.

Fontes consultadas

  • Padua L, et al. Carpal tunnel syndrome: clinical features, diagnosis, and management. Lancet Neurol. 2016;15(12):1273-84.
  • Gelberman RH, et al. The carpal tunnel syndrome: a study of carpal canal pressures. J Bone Joint Surg Am. 1981;63(3):380-3.
  • Page MJ, et al. Splinting for carpal tunnel syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2012;(7):CD010003.
  • American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Management of Carpal Tunnel Syndrome – Evidence-Based Clinical Practice Guideline.

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Dr. Thomas Marcolini, especialista em nervos periféricos

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