

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Dor na língua após tirar o siso: a jornada de quem tem lesão do nervo lingual
Dormência, queimação e choques na língua que não passam? Entenda cada etapa dessa jornada — e o que fazer agora
Tudo começa com algo que parecia simples: tirar o dente do siso. A anestesia passou, mas a língua continuou dormente. Depois vieram o formigamento, a queimação e, às vezes, os choques. Se você está vivendo isso, saiba que não está sozinho — e que existe um caminho.
Neste artigo, mostramos a jornada que muitos pacientes com lesão do nervo lingual percorrem, etapa por etapa, com dicas práticas para cada momento.
1. A indicação: precisava mesmo tirar o siso?
O nervo lingual é o nervo que leva a sensibilidade e o paladar para a parte da frente da língua. Ele passa muito perto do siso de baixo, pelo lado de dentro da boca. Por isso, toda extração do siso inferior tem um pequeno risco de machucar esse nervo.
Depois da lesão, muitos pacientes ficam com três perguntas na cabeça:
- Precisava tirar o dente? Siso com dor, inflamação na gengiva (pericoronarite), cárie ou cisto costuma ter indicação clara. Já a retirada de siso sem sintomas e sem doença é um tema debatido entre especialistas.
- Assinei um termo de consentimento? Antes da cirurgia, o paciente deve ser informado dos riscos — inclusive de alteração da sensibilidade da língua e do lábio — e concordar por escrito.
- A técnica foi correta? A posição do dente, a forma de afastar a gengiva e o uso de brocas do lado da língua influenciam o risco. Mesmo com boa técnica, a lesão pode acontecer.
Essas dúvidas são legítimas. Mas, agora, o mais importante é cuidar do nervo e da sua dor.
Dica prática: guarde seus documentos
Seja qual for a resposta para essas perguntas, reúna desde já:
- Cópia do termo de consentimento assinado.
- Radiografia panorâmica ou tomografia feitas antes da cirurgia.
- Data da extração e nome do profissional que fez o procedimento.
- Receitas e orientações do pós-operatório.
- Cópia do prontuário — você tem direito a ela.
Esses documentos ajudam o médico a entender o que aconteceu e em que momento os sintomas começaram.
2. A dormência que não passa — e começa a doer
Nas primeiras horas, a língua dormente é efeito da anestesia. O alerta acende quando a dormência continua no dia seguinte, no outro e na semana seguinte.
Com o tempo, muitos pacientes percebem que a dormência muda: surge o formigamento, depois a queimação e, às vezes, choques ao falar, mastigar ou escovar os dentes. Isso acontece porque o nervo machucado pode passar a mandar sinais errados ao cérebro. É a chamada dor neuropática.
A boa notícia: a maioria das alterações depois do siso é leve e melhora sozinha em semanas ou meses. A lesão grave é rara. Por isso, acompanhar a evolução de perto é tão importante.
Sinais que merecem avaliação
Dormência da língua que não melhora nada com o passar das semanas
Queimação ou ardência constante na língua
Choques ao falar, mastigar ou escovar os dentes
Paladar alterado: gosto metálico ou perda do gosto de um lado
Morder a língua sem perceber
Dor que atrapalha comer, falar, trabalhar ou dormir
Se depois de cerca de 3 meses a sensibilidade continua igual, sem nenhuma evolução, a chance de a lesão ter sido mais grave é maior. É hora de uma avaliação especializada.

3. De volta ao dentista: “é normal, vai passar”
O caminho natural é voltar a quem fez a cirurgia. Na maioria das vezes, o paciente ouve que é normal e que vai passar. No começo, isso pode ser verdade.
O problema aparece quando os meses passam e nada muda. A confiança vai se desgastando: o paciente se sente ignorado, e o profissional insiste que os exames estão normais. A relação, que era de cuidado, começa a ficar difícil.
E existe um detalhe que quase ninguém explica: os exames mais pedidos não mostram o nervo lingual.
Por que os exames “dão normal”?
O nervo lingual é fino e fica fora do osso, na parte mole da boca. Por isso, os exames feitos para ver dente e osso não conseguem mostrá-lo.
Radiografia panorâmica
Mostra dentes e ossos da face. Útil para planejar a extração, mas não enxerga o nervo lingual.
Tomografia
Mostra o osso em detalhes e o canal de outro nervo (o alveolar inferior). O nervo lingual, que fica fora do osso, não aparece.
Ressonância magnética comum
Não é feita para estudar um nervo tão pequeno. Um laudo “normal” não descarta a lesão.
Neurografia por ressonância magnética
Protocolo específico para nervos periféricos. Consegue mostrar o nervo lingual, sinais de inchaço, neuroma ou interrupção. Precisa de técnica e leitura especializadas.
Exame normal não quer dizer que não há lesão. Muitas vezes, quer dizer apenas que o exame não foi feito para ver o nervo. O diagnóstico também depende do exame clínico, com testes de sensibilidade e paladar.

4. Médicos sem resposta — e a confusão com a neuralgia do trigêmeo
Sem resposta no dentista, o paciente procura médicos: clínico, otorrino, neurologista. Muitos nunca viram um caso de lesão do nervo lingual. É comum ouvir que é “neuralgia do trigêmeo” ou receber remédios que não ajudam.
O nervo lingual é, sim, um ramo do nervo trigêmeo. Mas a dor que aparece depois de uma lesão do nervo é diferente da neuralgia do trigêmeo clássica — e o tratamento também pode ser diferente. Veja como diferenciar:
Lesão do nervo lingual × neuralgia do trigêmeo
- Começa depois de extração, anestesia ou outro procedimento na boca.
- Dormência junto com queimação contínua; pode ter choques.
- Fica na língua, de um lado só.
- Pode alterar o paladar.
- No exame, a sensibilidade da língua está diminuída.
- Em geral, não tem relação com cirurgia na boca.
- Crises de choque muito fortes e rápidas, de segundos.
- Disparadas por toque, fala, vento ou ao escovar os dentes.
- Costuma atingir o rosto: bochecha, maxilar ou queixo.
- Entre as crises, a sensibilidade costuma ser normal.
5. Quando a família desacredita: “será que é coisa da minha cabeça?”
A dor neuropática não aparece por fora. A boca parece normal, os exames parecem normais, e as pessoas próximas começam a duvidar. Frases como “você está exagerando” ou “isso é psicológico” machucam tanto quanto a dor.
Com o tempo, o próprio paciente passa a desconfiar de si mesmo. Mas saiba: a dor é real. Ela vem de um nervo machucado, não da imaginação. Ansiedade, tristeza e insônia são consequências comuns de uma dor crônica — e também merecem cuidado.
Dica: leve um familiar à consulta. Quando a família entende o que está acontecendo, o apoio muda — e isso faz diferença no tratamento.

6. Perdido, sem saber o que fazer? Comece por aqui
Se você se reconhece nessa jornada, estes passos ajudam a sair da sensação de estar perdido:
- Anote a evolução. Faça um diário simples: nota da dor de 0 a 10, o que piora, o que melhora e se o tato ou o paladar estão voltando.
- Não espere para sempre. Se em cerca de 3 meses a sensibilidade não mostrar nenhuma evolução, procure uma avaliação especializada.
- Procure quem trata nervos periféricos. A lesão do nervo lingual é uma lesão de nervo e precisa ser avaliada por quem lida com esse tipo de problema.
- Peça o exame certo. A neurografia por ressonância magnética é o exame de imagem que consegue mostrar o nervo lingual.
- Trate a dor desde já. Existem remédios específicos para dor neuropática. Não se automedique.
- Proteja a boca. Enquanto a sensibilidade não volta, cuidado com alimentos muito quentes e com mordidas na língua.
7. Existe saída: a lesão do nervo lingual tem tratamento
O tratamento depende da gravidade da lesão e da intensidade da dor. Na maioria dos casos, ele começa com remédios para dor neuropática, como anticonvulsivantes e antidepressivos tricíclicos em doses para dor. Em alguns casos, o corticoide também pode ser usado.
Nos casos mais graves, quando a dor é intensa e não melhora com os remédios, pode haver indicação de cirurgia do nervo lingual. Nela, o nervo é reposicionado e o neuroma (a “cicatriz” dolorosa do nervo) é retirado. É uma cirurgia pequena, feita com anestesia geral.
É preciso ser honesto: a cirurgia é uma tentativa de melhorar a dor, sem garantia de resultado, e geralmente não recupera o paladar. Por isso, cada caso precisa de uma consulta para avaliar os sintomas e decidir, junto com o paciente, se vale a pena.
No vídeo abaixo, explico o que pode ser feito por quem está passando por isso. Assista até o fim:
Perguntas frequentes sobre lesão do nervo lingual
Dormência na língua depois de tirar o siso é normal?
Nas primeiras horas, sim: é efeito da anestesia. Se a dormência continuar por dias, pode ser uma lesão do nervo lingual. Na maioria das vezes a lesão é leve e melhora sozinha em semanas ou meses, mas vale acompanhar de perto.
Quanto tempo a parestesia lingual pode durar?
Depende da gravidade. Lesões leves costumam melhorar em semanas ou poucos meses. Se depois de cerca de 3 meses a sensibilidade continua igual, sem nenhuma evolução, a chance de lesão mais grave é maior e é hora de uma avaliação especializada.
Como saber se o nervo atingido foi o lingual?
Se a dormência ou a dor ficam só na língua, o nervo mais provável é o lingual. Se pegam os dentes, o lábio de baixo e o queixo, o nervo afetado costuma ser o alveolar inferior ou o mentoniano.
Qual exame mostra o nervo lingual?
A neurografia por ressonância magnética, feita com protocolo próprio para nervos periféricos. A radiografia panorâmica e a tomografia mostram dentes e ossos, mas não mostram o nervo lingual.
É neuralgia do trigêmeo?
O nervo lingual é um ramo do trigêmeo, mas a dor que aparece após a lesão desse nervo é diferente da neuralgia do trigêmeo clássica. Ela começa depois de um procedimento, vem com dormência e queimação na língua e pode alterar o paladar.
A dor é psicológica?
Não. A dor neuropática vem de um nervo machucado e é real, mesmo quando a boca parece normal. Ansiedade, tristeza e insônia podem aparecer como consequência da dor crônica e também precisam de cuidado.
A cirurgia do nervo lingual devolve o paladar?
Geralmente não. Quando indicada, a cirurgia busca melhorar a dor neuropática intensa. É uma tentativa de melhora, sem garantia de resultado, e cada caso precisa ser avaliado em consulta.
O atendimento pode ser por teleconsulta?
Sim. A avaliação pode ser presencial em Curitiba ou em São Paulo, ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
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Dr. Thomas Ribeiro Marcolini
Neurocirurgião que atua em nervos periféricos · CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510 · CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003
Atendimento em Curitiba, em São Paulo e por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol. Se você se identificou com essa jornada, uma avaliação pode ajudar a entender o seu caso.
Agendar avaliação pelo WhatsAppAviso: este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado.
Referências
- Renton T. Oral surgery: part 4. Minimising and managing nerve injuries and other complications. Br Dent J. 2013;215(8):393-9. doi:10.1038/sj.bdj.2013.993
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- Chhabra A, Bajaj G, Wadhwa V, et al. MR neurographic evaluation of facial and neck pain. Radiographics. 2018;38(5):1498-513. doi:10.1148/rg.2018170194
- Bailey E, Kashbour W, Shah N, et al. Surgical techniques for the removal of mandibular wisdom teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2020;7:CD004345. doi:10.1002/14651858.CD004345.pub3
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- Conselho Federal de Odontologia. Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012).

