

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Lesão do nervo lingual na retirada do siso: sintomas, quanto tempo dura e tratamento da dor
- A lesão do nervo lingual é uma complicação pouco frequente da extração do siso de baixo e causa dormência, formigamento, choque ou queimação em um lado da língua.
- Na maioria dos casos, os sintomas melhoram sozinhos em semanas, quase sempre em até 3 meses.
- Sem nenhuma melhora depois de 3 meses, ou com dor forte, procure uma avaliação especializada.
- A dor é tratada com remédios para dor neuropática; nos casos mais graves, a cirurgia é uma opção.
O que é a parestesia lingual depois da retirada do siso?
O nervo lingual é o nervo que dá sensibilidade aos dois terços da frente da língua, ao assoalho da boca e à gengiva do lado de dentro dos dentes de baixo. Ele também leva as fibras do paladar dessa região. Esse nervo passa muito perto do dente do siso inferior, às vezes a poucos milímetros do osso.
Quando o nervo é esticado, comprimido ou cortado durante a extração, aparece a parestesia lingual: uma sensação anormal em um lado da língua, como dormência, formigamento, sensação de inchaço, choque ou queimação. Quando há dor, chamamos de dor neuropática pós-traumática.

Por que o nervo lingual pode ser lesionado na extração do siso?
O nervo lingual fica do lado de dentro da mandíbula, ao lado do siso de baixo. Em algumas pessoas ele passa mais alto ou mais perto do osso, e isso não aparece na radiografia comum. A lesão pode acontecer:
- no afastamento da gengiva do lado da língua;
- no uso de brocas e instrumentos para cortar o dente ou o osso;
- na anestesia local, quando a agulha toca o nervo;
- pelo inchaço e pela inflamação depois da cirurgia.
Muitas vezes a lesão acontece mesmo em uma cirurgia bem-feita, por causa da anatomia de cada pessoa. O mais importante é reconhecer o problema cedo.

Quanto tempo dura a parestesia lingual?
Depende do tipo de lesão. Quando o nervo só foi comprimido ou esticado, ele costuma se recuperar sozinho em algumas semanas e, na maioria das vezes, em até 3 meses. Quando houve corte ou lesão mais grave, a melhora pode não acontecer e os sintomas podem ficar permanentes.
A regra prática é simples: se não houver nenhuma melhora em 3 meses, procure uma avaliação especializada. Não vale a pena esperar anos para ver se passa.
- Primeiros dias
Dormência logo depois da anestesia e do inchaço é comum. Se continuar por mais de 2 dias, avise o seu dentista.
- Até 3 meses
Fase em que a maioria melhora sozinha. Anote os sintomas e observe se estão diminuindo.
- Depois de 3 meses sem melhora
Sinal de lesão mais grave. Procure avaliação com um médico que trata nervos periféricos.
- Dor forte em qualquer momento
Não precisa esperar: a dor neuropática pode ser tratada com remédios desde o início.
Como saber se o nervo lingual foi lesionado?
Os sinais aparecem em um só lado da língua, do mesmo lado do siso retirado:
- dormência ou sensação de língua “grossa” ou inchada;
- formigamento ou choques ao falar, mastigar ou encostar na língua;
- queimação ou ardência constante;
- mudança ou perda do paladar na ponta e na lateral da língua;
- mordidas sem querer na língua e dificuldade para sentir a comida desse lado.
O diagnóstico é feito na consulta, com o exame da sensibilidade da língua. Em casos selecionados, a ressonância magnética com neurografia do nervo lingual ajuda a ver o nervo e procurar um neuroma, uma espécie de “cicatriz” dolorosa do nervo.
Vídeo: Dormência na língua não passa? Como ter certeza da lesão no nervo lingual, com o Dr. Thomas Marcolini.

Como a dor do nervo lingual afeta o dia a dia
No consultório, vejo três perfis principais de pacientes:
- Quem precisa ter algo na boca o tempo todo (balas, chicletes ou comida) para aliviar a queimação. Com o tempo, pode ganhar peso ou ter dor na articulação da mandíbula.
- Quem sente dor ao comer: evita muitos alimentos, come só comidas sem tempero e pode perder peso.
- Quem não nota relação com a comida: a dor e o formigamento estão sempre presentes, mas não mudam com a alimentação.
E o paladar? Muitos pacientes quase não percebem a perda do paladar, porque o outro lado da língua compensa. Na prática, o que mais pesa na qualidade de vida é a dor, e é nela que o tratamento se concentra.
Tratamento da dor causada pela lesão do nervo lingual
Aqui tratamos o paciente que tem dor. A dor da lesão do nervo lingual é uma dor neuropática: nasce do próprio nervo lesionado, que passa a disparar sinais de dor de forma espontânea (descargas ectópicas) e deixa as vias de dor mais sensíveis. Por isso, analgésicos comuns e anti-inflamatórios costumam ajudar pouco.
O tratamento segue as diretrizes internacionais para dor neuropática e é feito em etapas: primeiro os medicamentos que agem no nervo, com ajuste gradual de dose; o corticoide em situações específicas; e, nos casos mais graves, a cirurgia.
Anticonvulsivantes
Pregabalina e gabapentina. Agem nos canais de cálcio (subunidade α2δ) das fibras lesionadas e diminuem a liberação dos sinais de dor. A dose é aumentada aos poucos. Efeitos mais comuns: sonolência, tontura e inchaço nas pernas.
Antidepressivos tricíclicos
Amitriptilina e nortriptilina , em doses baixas, menores do que as usadas para depressão. Reforçam as vias do próprio cérebro que bloqueiam a dor (serotonina e noradrenalina). Costumam ser tomados à noite e podem ser associados ao anticonvulsivante. Podem causar boca seca, intestino preso e sono.
Corticoide
Pode ser usado principalmente logo depois da lesão , para reduzir a inflamação e o inchaço ao redor do nervo. É um uso por tempo curto, com orientação médica. Não é tratamento de longo prazo.
Cirurgia
Quando a dor continua intensa mesmo com os remédios bem ajustados, a cirurgia é uma possibilidade: amputação do neuroma e reposicionamento do nervo , para tentar aliviar a dor.
Toda medicação precisa de prescrição e acompanhamento médico. Não tome remédios por conta própria.
Short: Parestesia na língua após o siso: o que fazer e como tratar.
Cirurgia: amputação do neuroma e reposicionamento do nervo
Depois da lesão, as fibras do nervo tentam crescer de novo, mas podem formar um neuroma: um nódulo de fibras desorganizadas, preso à cicatriz, que dispara sinais de dor. Quando a dor é intensa e não melhora com os remédios bem ajustados, eu indico a cirurgia:
- Localização e liberação do nervo da cicatriz que o prende.
- Amputação (ressecção) do neuroma: retiro o segmento doente do nervo, onde se forma o foco de dor.
- Reposicionamento do nervo: a ponta do nervo é colocada em um local protegido, longe da cicatriz e dos pontos de atrito, para diminuir a chance de a dor voltar.
A cirurgia é feita com anestesia geral e é um procedimento pequeno e de baixo risco. A indicação é pela dor, e ela pode ser indicada mesmo quando o neuroma não aparece no exame.
O objetivo é tentar aliviar a dor neuropática intensa. A cirurgia não recupera o paladar e não existe garantia de resultado. Por isso, cada caso é avaliado em consulta para decidir se vale a pena operar.
- Anestesia geral
- Procedimento pequeno e de baixo risco
- Objetivo: aliviar a dor neuropática intensa
- Não recupera o paladar
- Sem garantia de resultado
- Indicação definida em consulta, caso a caso
Dicas práticas para quem tem parestesia lingual
Enquanto o nervo se recupera, ou enquanto o tratamento faz efeito, alguns cuidados simples ajudam no dia a dia:
Cuidado com o quente
Teste a temperatura de bebidas e sopas com os lábios ou com o lado bom da boca. A língua dormente não avisa que está queimando.
Mastigue devagar
Corte a comida em pedaços menores e mastigue mais do lado sem dormência para não morder a língua.
Capriche na higiene
Escove a língua com delicadeza e observe feridas de mordida. Machucado que não cicatriza em 2 semanas deve ser visto pelo dentista.
Anote os sintomas
Registre o que sente (dormência, choque, queimação), a nota da dor de 0 a 10 e o que piora ou melhora. Isso ajuda muito na consulta.
Evite o que irrita
Pimenta, alimentos muito ácidos, álcool e cigarro podem aumentar a queimação em algumas pessoas.
Não espere demais
Sem melhora em 3 meses, ou com dor forte, procure avaliação. Leve a radiografia ou tomografia do siso e o relatório da extração.
Perguntas frequentes
A parestesia do nervo lingual tem cura?
Muitos casos melhoram sozinhos em até 3 meses. Quando a lesão é grave, a sensibilidade pode não voltar por completo, mas a dor pode ser controlada com remédios e, em casos selecionados, com cirurgia.
Quanto tempo devo esperar antes de procurar um especialista?
Se não houver nenhuma melhora em 3 meses, procure avaliação. Se houver dor forte, não espere: a dor neuropática pode ser tratada desde o início.
Quais remédios são usados para a dor do nervo lingual?
Anticonvulsivantes, como pregabalina e gabapentina, e antidepressivos tricíclicos em dose baixa, como amitriptilina e nortriptilina. O corticoide pode ser usado na fase inicial. Todos exigem receita e acompanhamento médico.
Qual exame mostra a lesão do nervo lingual?
O diagnóstico é feito principalmente na consulta, com o exame da sensibilidade da língua. A ressonância magnética com neurografia do nervo lingual ajuda a avaliar o nervo e procurar um neuroma.
Como é a cirurgia para a dor do nervo lingual?
É feita com anestesia geral. O neuroma (a parte doente do nervo) é retirado e o nervo é reposicionado em um local protegido, para tentar aliviar a dor. É um procedimento pequeno e de baixo risco.
A cirurgia devolve o paladar?
Não. O objetivo da cirurgia é aliviar a dor neuropática intensa. Ela não recupera o paladar e não existe garantia de resultado.
Moro longe de Curitiba ou São Paulo. Posso ser avaliado?
Sim. O Dr. Thomas Marcolini atende presencialmente em Curitiba e em São Paulo e também por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
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Sobre o autor
Dr. Thomas Ribeiro Marcolini
Neurocirurgião que atua em nervos periféricos, com foco no tratamento da dor neuropática e das lesões de nervos. Atendimento presencial em Curitiba e São Paulo e por teleconsulta, em português, inglês e espanhol.
Aviso: este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual.
Referências
- Finnerup NB, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173.
- Renton T, Yilmaz Z. Profiling of patients presenting with posttraumatic neuropathy of the trigeminal nerve. J Orofac Pain. 2011;25(4):333-344.
- Bagheri SC, et al. Retrospective review of microsurgical repair of 222 lingual nerve injuries. J Oral Maxillofac Surg. 2010;68(4):715-723.

