

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Síndrome da Dor Complexa Regional (SDCR): Sintomas, Causas e Tratamento
Entenda o que é, como é diagnosticada e quais são as opções de tratamento
A síndrome da dor complexa regional (SDCR), também chamada de distrofia simpático-reflexa, é uma doença em que a dor fica muito mais forte, e dura muito mais, do que seria esperado depois de uma fratura, torção ou cirurgia. O braço, a perna, a mão ou o pé podem ficar inchados, mudar de cor e de temperatura, e até um toque leve pode doer.
Se você acabou de receber esse diagnóstico, respire fundo: é uma condição difícil, mas existe tratamento, e quanto mais cedo ele começa, melhores costumam ser os resultados. Neste guia, o Dr. Thomas Marcolini, neurocirurgião que atua em nervos periféricos, explica tudo em linguagem simples: o que é a SDCR, como reconhecer, o que você pode fazer em casa e quando a neuroestimulação pode ser uma opção.
Entenda a SDCR em poucos minutos
Prefere ler? Continue abaixo: o texto traz as mesmas informações, com mais detalhes e dicas práticas.
Recebi o diagnóstico de SDCR. E agora?
Ouvir esse nome pode assustar. Mas a SDCR costuma responder melhor quando o tratamento começa cedo. Estes três passos ajudam muito nesse momento:
Acalme-se
É normal sentir ansiedade, tristeza ou confusão. Respire fundo e devagar, faça algo de que goste (ler, ouvir música) e converse com alguém de confiança.
Entenda o diagnóstico
Busque fontes confiáveis, como artigos científicos, sociedades médicas e grupos de pacientes. Anote suas dúvidas para levar à consulta.
Procure um especialista
Agende uma avaliação com um médico que conheça a SDCR e siga o plano combinado, mesmo nos dias difíceis. O tratamento é feito em equipe.
Lembre-se: o diagnóstico traz um caminho a seguir. Com tratamento e apoio, muitas pessoas melhoram bastante a dor e a qualidade de vida.
O que é a síndrome da dor complexa regional?
É uma doença crônica da dor que costuma atingir um braço, uma perna, uma mão ou um pé. Ela aparece depois de um “gatilho”, como fratura, entorse, cirurgia ou imobilização com gesso, e a dor passa a ser bem maior do que a lesão explicaria. Em alguns casos, nenhuma causa clara é encontrada.
Os médicos acreditam que os nervos, a medula e o cérebro ficam “desregulados” depois da lesão, junto com uma inflamação exagerada. Por isso o corpo continua enviando sinais de dor mesmo quando o tecido já cicatrizou. Em resumo: é um distúrbio da dor. Se você sente queimação no pé deitado na cama, sem motivo aparente, isso pode ser um sinal.
Dois tipos de SDCR
Tipo 1
Não há lesão de nervo identificada. É o tipo mais comum e o que antigamente se chamava de distrofia simpático-reflexa (DSR) ou algodistrofia.
Tipo 2
Existe uma lesão de nervo comprovada. Antigamente, era chamado de causalgia.
O que pode desencadear a SDCR?
- Fraturas, principalmente de punho, tornozelo e pé;
- Entorses e contusões, mesmo as que parecem pequenas;
- Cirurgias, por exemplo no punho, na mão ou no pé;
- Imobilização prolongada com gesso ou tala;
- Lesões de nervos periféricos;
- Mais raramente, AVC e infarto.
Estresse e ansiedade não causam a doença, mas podem piorar a dor. Se a dor de uma cirurgia ou de um trauma, que deveria melhorar em poucos dias, se prolonga e vai se espalhando, converse com o seu médico.
Quais são os principais sintomas da SDCR?
Os sintomas variam de pessoa para pessoa e de acordo com a intensidade do quadro. Costumam aparecer perto da lesão e, em geral, em apenas um braço ou uma perna.
Dor forte e desproporcional
Queimação, choque ou pontada, bem maior do que a lesão explicaria.
Dor ao toque leve
O toque da roupa, do lençol ou do vento na pele pode doer (alodínia).
Inchaço
A mão ou o pé fica mais inchado do que o lado oposto.
Cor e temperatura diferentes
A pele fica vermelha, arroxeada ou pálida, mais quente ou mais fria que o outro lado.
Suor alterado
Suor em excesso no membro afetado, ou pele muito seca.
Pele, unhas e pelos
Pele fina e brilhante, unhas quebradiças e pelos que crescem de forma diferente.
Rigidez e fraqueza
Dificuldade para fechar a mão, mexer os dedos ou apoiar o pé. Podem surgir tremores e cãibras.
Formigamento e dormência
Sensação de agulhadas, formigamento ou “peso” no membro.
Exemplo de alteração na pele da mão em um caso de SDCR.
Percebeu vários desses sinais depois de uma fratura, entorse ou cirurgia? Não espere a dor “passar sozinha”. Procure avaliação médica o quanto antes, porque o tratamento precoce faz diferença.
A SDCR pode se espalhar?
A SDCR atinge principalmente os braços, as mãos, as pernas e os pés. Na maior parte dos casos, ela fica no mesmo membro. Mas, quando o quadro fica muito tempo sem tratamento, a doença pode se espalhar e piorar com o passar do tempo. Por isso, quanto antes você procurar ajuda, melhor.
Para perto
A doença avança para tecidos próximos da lesão. Por exemplo: do pé para o tornozelo, a perna e a coxa.
Para outro lugar
Aparece em outra parte do corpo, sem ligação direta. Por exemplo: começou no braço e depois surgiu na perna.
Em espelho
A dor passa para o lado oposto, como em um espelho. Por exemplo: começa em um pé e depois aparece no outro.
Como é feito o diagnóstico da SDCR?
Não existe um exame único que “prove” a SDCR. O diagnóstico é clínico: o médico conversa com você, examina o membro e confere se os sinais e sintomas batem com os critérios internacionais, chamados de critérios de Budapeste. Eles avaliam quatro grupos de alterações:
Sensibilidade
Dor ao toque leve e dor desproporcional à lesão.
Cor e temperatura
Mudança de cor da pele e diferença de temperatura entre os lados.
Suor e inchaço
Suor alterado e inchaço no membro afetado.
Movimento e pele
Fraqueza, rigidez ou tremor, e alterações de pele, unhas e pelos.
Para fechar o diagnóstico, a dor precisa ser maior do que a lesão explicaria, devem existir sintomas em pelo menos três desses grupos e sinais percebidos pelo médico em pelo menos dois, sem outra doença que explique melhor o quadro.
Exames como radiografia, cintilografia óssea, ressonância e eletroneuromiografia ajudam a descartar outras causas (como fratura mal consolidada, infecção, trombose ou compressão de nervo), mas sozinhos não confirmam a SDCR.
O que levar para a consulta
- Quando a dor começou e o que aconteceu antes (queda, cirurgia, gesso);
- Fotos do membro nos dias ruins, mostrando cor e inchaço;
- Lista dos remédios e tratamentos que você já tentou;
- Seus exames e relatórios anteriores.
Como a SDCR é tratada?
O tratamento é feito em equipe e em etapas. O objetivo é diminuir a dor e devolver movimento e função ao membro. Segundo as diretrizes internacionais, o pilar do tratamento é a reabilitação, combinada com medicamentos e outras técnicas conforme cada caso. Quanto mais cedo começar, melhor.
Reabilitação
Fisioterapia e terapia ocupacional, com exercícios graduais, dessensibilização e terapia do espelho. Mexer o membro, no ritmo certo, faz parte do tratamento.
Medicamentos
Remédios para dor neuropática e outros, indicados pelo médico de acordo com os seus sintomas. Nunca se automedique.
Bloqueios e infiltrações
Anestésicos aplicados perto dos nervos, que aliviam a dor e ajudam você a fazer a reabilitação.
Apoio emocional
Psicólogo ou psiquiatra ajudam a lidar com a dor crônica, o sono e a ansiedade.
Neuroestimulação
Opção para a dor intensa que não melhorou com os tratamentos acima, feitos de forma adequada.
A resposta ao tratamento é diferente em cada pessoa e não há garantia de cura. O foco é reduzir a dor e melhorar a sua qualidade de vida.
Dicas úteis para o dia a dia
Além do tratamento com a equipe médica, pequenos hábitos fazem diferença. Converse com o seu médico e o seu fisioterapeuta antes de começar qualquer exercício novo.
Mexa o membro todos os dias
Faça pequenos movimentos várias vezes ao dia, no ritmo indicado pelo fisioterapeuta. Evite deixar o braço ou a perna parados ou presos por muito tempo.
Treine a pele com texturas
Passe de leve algodão, toalha e esponja no local por alguns minutos e, aos poucos, texturas mais ásperas. Isso ajuda o cérebro a “reaprender” o toque.
Proteja do frio e do calor
Use meias e luvas macias e evite compressas muito quentes ou muito geladas direto na pele.
Cuide do sono
Mantenha horários regulares, quarto escuro e apoie o membro com travesseiros. Dormir bem ajuda a reduzir a dor.
Respire e relaxe
Respiração lenta, alongamentos suaves e meditação guiada diminuem a tensão e podem aliviar a dor.
Não fume
O cigarro prejudica a circulação e a recuperação dos tecidos. Procure ajuda para parar.
Faça um diário da dor
Anote a dor de 0 a 10, o que você fez e o que melhorou ou piorou. Leve para o médico.
Peça apoio
Converse com a família, os amigos e grupos de pacientes. Pedir ajuda não é fraqueza.
Fraturou o punho? Pergunte ao seu ortopedista sobre medidas de prevenção, como mexer cedo o que for permitido e, em alguns casos, vitamina C. Use somente com orientação médica.
Neuroestimulação: quando os outros tratamentos não bastam
Quando a dor continua intensa mesmo com reabilitação e medicamentos bem feitos, a neuroestimulação pode ser uma opção. Ela é um tratamento para dor neuropática crônica: um aparelho envia uma corrente elétrica muito fraca, por meio de eletrodos finos, que modifica os sinais de dor antes de eles chegarem ao cérebro.
O aparelho precisa de bateria?
Sim. O neuroestimulador usa uma pequena bateria, implantada sob a pele, e é programado por Bluetooth, com diferentes intensidades de acordo com a sua dor.
Quais são os tipos de neuroestimulação?
Estimulação medular
Os eletrodos ficam em volta da medula espinhal e estimulam uma região ampla, que inclui nervos que não causam dor.
Estimulação do gânglio da raiz dorsal (DRG)
O eletrodo fica bem perto da raiz do nervo, antes de ele entrar na coluna, e estimula de forma mais focada a região onde você sente dor, como o pé e a perna.
Vídeo: eletrodos e neuroestimuladores são todos iguais?
DRG ou medular: o que dizem os estudos?
O principal estudo que comparou os dois métodos na SDCR foi o ACCURATE, publicado na revista Pain em 2017. Participaram 152 pessoas com SDCR ou causalgia na perna ou no pé, que receberam um dos dois tratamentos por sorteio.
55,7%
dos pacientes com estimulação medular tiveram o mesmo resultado no mesmo período
Os pacientes com DRG também relataram menos variação do formigamento ao mudar de posição, menos estimulação em áreas sem dor e maior melhora na qualidade de vida. Em um estudo complementar, com 12 meses de acompanhamento, o alívio médio com o DRG se manteve estável (cerca de 70%), enquanto na estimulação medular ele diminuiu com o tempo (cerca de 58% aos 12 meses).
| Estimulação medular | Estimulação do DRG | |
|---|---|---|
| Onde fica o eletrodo | Em volta da medula espinhal | Junto da raiz do nervo, antes de entrar na coluna |
| Área estimulada | Ampla, inclui regiões sem dor | Mais focada na região da dor |
| Formigamento ao mudar de posição | Varia mais | Varia menos |
| Alívio de 50% ou mais aos 3 meses | 55,7% dos pacientes | 81,2% dos pacientes |
Esses números vêm de um grupo de pacientes e não garantem o mesmo resultado para você. O estudo teve a participação do fabricante do aparelho. A escolha do método depende do seu caso e é definida na consulta.
Como é a cirurgia de implante do eletrodo?
Esta é a sequência da cirurgia de implante do eletrodo realizada pela nossa equipe:
Anestesia geral
Você dorme durante todo o procedimento.
Posição e limpeza
Você fica de barriga para baixo e a pele do local é limpa.
Colocação do eletrodo
O eletrodo é posicionado no local certo, conferido por raio X durante a cirurgia.
Conexão ao gerador
O cabo do eletrodo passa por baixo da pele e é ligado ao gerador (a bateria).
Fixação e curativo
São feitos dois pequenos cortes: um para o eletrodo e outro para a bateria. Depois, a pele é fechada e o curativo é feito.
Internação e programação
Você fica internado de 1 a 4 dias. Depois de se recuperar da anestesia, o aparelho é programado por Bluetooth.
Como toda cirurgia, existem riscos, como infecção, sangramento, deslocamento do eletrodo e falha do aparelho. Eles são explicados com calma na consulta.
Vídeo: entenda a cirurgia do eletrodo DRG
Quem tem indicação do eletrodo?
A neuroestimulação é pensada para pessoas com SDCR em braço ou perna que não tiveram resposta satisfatória a outros tratamentos. Em geral, os critérios que as operadoras de saúde seguem são:
- Dor crônica que não melhorou com fisioterapia e medicamentos;
- Mais de 6 meses de dor sem melhora;
- Qualidade de vida prejudicada pela dor, como no sono, no trabalho e nas atividades do dia a dia.
Se a sua doença está piorando, mesmo com medicação e reabilitação, e a dor continua intensa, esse procedimento pode ser uma opção para você. Somente a avaliação médica define a indicação.
Quanto custa? O convênio cobre?
O eletrodo é um dispositivo de custo elevado. Se você tem convênio e indicação para o implante, a operadora costuma cobrir o dispositivo e a internação, mas cada caso e cada convênio são analisados individualmente. Na consulta, orientamos sobre o pedido junto à operadora.
Depois do implante, como vou melhorar da dor?
Quando você estiver totalmente recuperado da anestesia, programamos o aparelho por Bluetooth. Essa tecnologia permite escolher vários tipos e intensidades de estimulação de acordo com a sua dor e ajustar depois, conforme a sua evolução.
Vídeo: o eletrodo DRG é para você?
Quer saber mais sobre o aparelho? Veja a página sobre a cirurgia para dor neuropática em Curitiba.
Quando procurar atendimento com urgência?
Procure um pronto-atendimento ou o seu médico rapidamente se, além da dor, você tiver:
- Febre, vermelhidão que se espalha ou saída de pus (sinais de infecção);
- Membro muito frio, azulado ou sem pulso;
- Inchaço súbito e dor intensa em uma perna (risco de trombose);
- Feridas que não cicatrizam;
- Fraqueza que piora rapidamente.
A dor crônica também cansa a mente. Se você se sente sem esperança, procure ajuda profissional. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo telefone 188.
Perguntas frequentes sobre a SDCR
A SDCR tem cura?
Em muitas pessoas, principalmente quando o tratamento começa cedo, os sintomas melhoram bastante ou até desaparecem. Em outras, a dor se torna crônica e o objetivo passa a ser controlá-la e recuperar a função. Por isso, não existe promessa de cura: cada caso é diferente.
SDCR é o mesmo que distrofia simpático-reflexa (DSR)?
Sim. Distrofia simpático-reflexa e algodistrofia são nomes antigos da SDCR. O tipo 2 era chamado de causalgia.
A SDCR é um problema psicológico?
Não. É uma doença do sistema nervoso, com inflamação associada. O estresse e a ansiedade podem piorar a dor, e a dor crônica pode causar sofrimento emocional, mas a doença não é “coisa da sua cabeça”.
A fisioterapia pode piorar a dor?
No começo, é comum sentir algum desconforto. O importante é que os exercícios sejam graduais e orientados por um profissional que conheça a SDCR. Se a dor ficar forte demais, avise o terapeuta para ajustar o ritmo, em vez de parar o tratamento.
Quanto tempo a SDCR dura?
Varia muito. Algumas pessoas melhoram em alguns meses e outras convivem com os sintomas por anos. Quanto antes o tratamento começa, melhores costumam ser as chances de uma boa recuperação.
O neuroestimulador cura a SDCR?
Não. Ele não cura a doença, mas pode reduzir bastante a dor em muitos pacientes e permitir que você faça a reabilitação e retome atividades. Nem todas as pessoas respondem da mesma forma.
O convênio cobre o neuroestimulador?
Se você tem convênio e indicação para o implante, a operadora costuma cobrir o dispositivo e a internação. Cada caso e cada convênio são analisados individualmente.
Como agendar uma consulta?
Pelo WhatsApp. As consultas são particulares, presenciais em Curitiba e em São Paulo, ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
Dr. Thomas Marcolini
Neurocirurgião que atua em nervos periféricos.
CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510
CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003
Aviso importante
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Não existe resultado garantido: a resposta ao tratamento é diferente em cada pessoa. Não inicie nem interrompa medicamentos sem orientação do seu médico.
Atualizado em outubro de 2026.
Fontes científicas
- Harden RN, McCabe CS, Goebel A, et al. Complex Regional Pain Syndrome: Practical Diagnostic and Treatment Guidelines, 5th Edition. Pain Medicine, 2022. doi:10.1093/pm/pnac046
- Harden RN, Bruehl S, Perez RSGM, et al. Validation of proposed diagnostic criteria (the "Budapest Criteria") for Complex Regional Pain Syndrome. Pain, 2010. doi:10.1016/j.pain.2010.04.030
- Deer TR, Levy RM, Kramer J, et al. Dorsal root ganglion stimulation yielded higher treatment success rate for complex regional pain syndrome and causalgia at 3 and 12 months: a randomized comparative trial. Pain, 2017. doi:10.1097/j.pain.0000000000000814
- Levy RM, Mekhail N, Kramer J, et al. Therapy habituation at 12 months: spinal cord stimulation versus dorsal root ganglion stimulation for CRPS type I and II. The Journal of Pain, 2019. doi:10.1016/j.jpain.2019.08.005

