Hospital São Camilo: neurocirurgia de nervos periféricos em SP
Médico especialista em Nervos Periféricos no Brasil.

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos

Por Dr. Thomas Marcolini • April 20, 2022

Pé caído após lesão no esporte: causas, sinais e quando operar

Você levou um carrinho no futebol, saiu de um treino de jiu-jitsu com o joelho torcido ou caiu de moto e, depois disso, o pé não levanta mais? Isso pode ser uma lesão do nervo fibular (também chamado de nervo peroneal), a principal causa de pé caído depois de um trauma no esporte.

Neste artigo, explico em linguagem simples por que isso acontece, quais lesões de joelho e de quadril estão por trás do problema, o que fazer nas primeiras semanas e em que casos a cirurgia pode ajudar.

Resumo rápido

  • Pé caído é a dificuldade de levantar a ponta do pé. É um sinal de lesão no nervo, não uma doença.
  • No esporte, o nervo mais atingido é o nervo fibular , que passa rente ao osso, logo abaixo do joelho.
  • Carrinho no futebol, chave de joelho no jiu-jitsu e queda de moto estão entre as causas mais comuns.
  • Lesões de joelho e de quadril também podem machucar o nervo (fibular ou ciático).
  • Nem todo caso precisa de cirurgia, mas procurar avaliação cedo aumenta as opções de tratamento.

O que é pé caído e por que ele aparece depois de uma lesão esportiva

O pé caído é a dificuldade de levantar a ponta do pé. Por causa disso, o pé arrasta no chão, você tropeça e passa a levantar mais o joelho para andar.

Ele não é uma doença: é um sinal de que o nervo que comanda os músculos da frente da perna foi machucado. No esporte, o nervo mais atingido é o nervo fibular comum. Ele passa pela parte de fora do joelho, dá a volta na cabeça da fíbula (o osso fino da perna) e fica bem rente à pele, quase sem proteção.

Por isso, uma pancada, uma torção ou uma fratura nessa região pode esticar, comprimir ou até romper o nervo. Nem toda lesão é igual: em alguns casos o nervo só fica "atordoado" e melhora em semanas ou meses; em outros ele é esticado ou rompido, e a recuperação é mais lenta e incerta.

Sinais de alerta: quando suspeitar de lesão do nervo

1

O pé arrasta no chão

A ponta do pé raspa no chão ao andar e você tropeça com facilidade.

2

Pé e dedos sem força para subir

Fica difícil puxar o pé para cima, como se ele estivesse "mole".

3

Barulho de "tapa" no passo

O pé bate no chão com força logo depois de apoiar o calcanhar.

4

Dormência ou formigamento

Na parte de cima do pé e na lateral da perna, abaixo do joelho.

5

Joelho levantado demais

Você passa a levantar mais a perna para o pé não raspar no chão.

6

Dor na lateral do joelho

Pode haver dor, inchaço ou roxo na região da cabeça da fíbula.

Notou algum desses sinais depois de uma lesão? Não espere melhorar sozinho. Quanto antes o nervo for avaliado, mais opções de tratamento existem.

Jogador sentado no gramado de um campo de futebol, com o joelho enfaixado e um pé sem chuteira após lesão no jogo

Pé caído no futebol: carrinho, torção e pancada no joelho

O futebol é um dos esportes em que mais vemos lesão do nervo fibular. Os momentos de maior risco são:

  • Carrinho ou pancada direta na parte de fora do joelho ou da perna.
  • Entorse forte de tornozelo, com o pé virando para dentro: esse movimento estica o nervo.
  • Mudança brusca de direção com o pé preso na grama, que torce o joelho.
  • Fratura da fíbula ou lesão dos ligamentos do joelho.

Dica: depois de um carrinho ou de uma entorse, se você notar dormência na parte de cima do pé ou dificuldade para levantar os dedos, não espere "passar sozinho". Procure uma avaliação. A caneleira protege a canela, mas não evita o estiramento do nervo. Já fortalecer joelho e tornozelo ajuda a reduzir as torções.

Pé caído no jiu-jitsu: chaves de joelho e de pé

No jiu-jitsu, o risco vem das torções e da pressão sobre a perna. As situações mais perigosas são as chaves de joelho e de pé (como a chave de calcanhar, o heel hook, e a chave de joelho, o kneebar), além de quedas em que o corpo gira e o pé fica preso no tatame.

Esses golpes podem romper ligamentos e meniscos e, quando o joelho abre para o lado, esticar o nervo fibular. Ficar muito tempo ajoelhado ou agachado também pode comprimir o nervo, mas isso costuma causar só formigamento, que melhora ao mudar de posição.

Dicas para proteger o nervo:

  • Bata cedo (tap). Não "aguente" uma chave para tentar sair dela.
  • Treine chaves de calcanhar só com parceiros de confiança e com supervisão do professor.
  • Pare o treino se sentir estalo, joelho "mole", dormência ou o pé sem força.
  • Não volte ao tatame "para ver se melhora". Isso pode piorar a lesão.

Pé caído na moto, no motocross e na trilha: quedas e fraturas

Nas quedas de moto, a perna pode ficar presa embaixo da moto, bater em obstáculos ou ser torcida para o lado. Isso causa fraturas da tíbia e da fíbula, luxação do joelho e fraturas do quadril e da bacia. Todas elas podem machucar o nervo fibular ou o nervo ciático.

Um detalhe importante: logo depois do acidente, a dor, o gesso e a imobilização podem esconder o problema. Muitos pacientes só percebem o pé caído semanas depois.

O que fazer:

  • Avise a equipe do hospital se sentir dormência ou dificuldade para levantar o pé, mesmo que o foco do tratamento seja a fratura.
  • Se o gesso ou a tala estiver apertando a parte de fora do joelho, peça para revisar.
  • Use bota com proteção de tornozelo e joelheiras articuladas. Elas não eliminam o risco, mas ajudam a diminuir o impacto.

Lesões de joelho que podem causar pé caído

O nervo fibular fica muito perto do joelho, por isso lesões graves dessa região são as que mais machucam o nervo. As principais são:

  • Luxação do joelho (quando o joelho "sai do lugar"), com lesão de vários ligamentos. Em um estudo com lesões de múltiplos ligamentos do joelho, cerca de 1 em cada 4 pacientes tinha lesão do nervo fibular.
  • Lesão do canto posterolateral do joelho (as estruturas da parte de trás e de fora do joelho).
  • Fraturas da cabeça da fíbula e do platô tibial.
  • Cirurgias do joelho (ligamentos, osteotomia, prótese), em casos raros, ou gesso, tala e joelheira muito apertados.

Um ponto que confunde muita gente: a ressonância do joelho mostra bem os ligamentos e os meniscos, mas nem sempre mostra o nervo. Para avaliar o nervo, o médico pode pedir eletroneuromiografia, ultrassom ou ressonância com neurografia. Se você vai operar o joelho e já está com o pé caído, avise o cirurgião antes.

Paciente caminhando de muletas em corredor de hospital, com o joelho enfaixado após lesão no joelho

Lesões do quadril e do nervo ciático: quando o problema começa mais acima

O nervo fibular é um dos ramos do nervo ciático, que sai do quadril e desce pela parte de trás da coxa. Por isso, uma lesão do ciático no quadril também pode causar pé caído. Nesses traumas, a parte do ciático que forma o nervo fibular costuma ser a mais afetada.

As causas mais comuns são:

  • Luxação do quadril, comum em acidentes de moto e em traumas de alta energia.
  • Fratura do acetábulo (a "cavidade" do quadril), principalmente quando atinge a parte de trás.
  • Hematoma ou lesão muscular na parte de trás da coxa.
  • Raramente, cirurgias do quadril, como prótese ou artroscopia.

Como saber se o problema é no quadril ou no joelho? Dor na nádega, fraqueza para dobrar o joelho ou dormência também na sola do pé sugerem que a lesão está mais acima. Problemas na coluna lombar (raiz L5) também podem imitar o pé caído, por isso o exame clínico é tão importante.

Assista: onde o nervo machucou?

Neste vídeo, explico como descobrir se o pé caído vem da coluna, do quadril ou do joelho.

Como é o tratamento do pé caído causado por lesão esportiva

O tratamento depende de quanto o nervo foi machucado e de quanto tempo já passou. Em geral, os passos são estes:

  1. Diagnóstico: exame clínico detalhado e eletroneuromiografia (em geral feita 3 a 4 semanas após a lesão, quando o resultado é mais confiável), além de ultrassom ou ressonância com neurografia, quando necessário.
  2. Proteção do pé: órtese (um aparelho que mantém o pé levantado) e fisioterapia desde o início. Isso evita quedas e impede que o tornozelo fique "duro".
  3. Observação: em lesões leves, o nervo pode se recuperar sozinho. O acompanhamento é feito com consultas e exames.
  4. Cirurgia do nervo: pode ser indicada quando a lesão é aberta, quando não há sinais de recuperação no tempo esperado ou quando algo comprime o nervo. As opções incluem liberação do nervo, enxerto de nervo e transferência de nervo.
  5. Transferência de tendão: se o nervo não se recuperou depois de muito tempo, é possível transferir o tendão do músculo tibial posterior para a frente do pé e devolver o movimento de levantar. Nessa cirurgia, às vezes se associa um parafuso no calcanhar (artrorise subtalar, ou calcâneo-stop) para proteger o retropé.

O tempo importa: o nervo cresce cerca de 1 milímetro por dia e, com o passar dos meses, o músculo perde a capacidade de se recuperar. Por isso, quanto mais cedo você for avaliado, mais opções existem. Cada caso é diferente e nenhum resultado pode ser prometido.

8 dicas para os primeiros dias após a lesão

Atitudes simples que ajudam a proteger o nervo e a evitar que o problema piore.

1

Pare o esporte

Treinar com o nervo machucado aumenta o risco de queda e de uma nova lesão.

2

Proteja o pé

Use calçado firme ou a órtese indicada pelo médico para o pé não arrastar.

3

Não deixe o pé "cair"

Faça o alongamento do tornozelo ensinado pelo fisioterapeuta, para o tendão não encurtar.

4

Alivie a pressão no joelho

Evite cruzar as pernas, ficar ajoelhado por muito tempo e usar joelheira ou gesso apertado.

5

Registre tudo

Anote a data da lesão e grave um vídeo do seu andar. Isso ajuda muito na consulta.

6

Faça os exames no tempo certo

A eletroneuromiografia costuma ser mais útil 3 a 4 semanas após a lesão. O médico indica a data.

7

Cuidado com quedas em casa

Retire tapetes soltos, deixe a casa bem iluminada à noite e suba escadas com apoio.

8

Procure avaliação cedo

Quanto antes o nervo for avaliado por um médico de nervos periféricos, mais opções existem.

Mais explicações em vídeo

Dois vídeos do meu canal que respondem às dúvidas mais comuns de quem está com pé caído.

Pé caído "não tem solução"?

Entenda o que pode ser feito mesmo quando disseram que não havia tratamento.

Pé caído sem cirurgia: órtese com mola

Veja como a órtese ajuda a levantar o pé e a evitar quedas no dia a dia.

Perguntas frequentes sobre pé caído após lesão esportiva

Pé caído por lesão no esporte tem cura?

Depende da gravidade da lesão do nervo. Quando o nervo só foi "atordoado", muitos pacientes melhoram em semanas ou meses. Em lesões mais graves, a recuperação pode ser parcial, e a cirurgia pode ajudar a recuperar o movimento de levantar o pé. Por isso, não é possível prometer resultado sem avaliar cada caso.

Quanto tempo o nervo demora para se recuperar?

O nervo cresce cerca de 1 milímetro por dia. Como a distância até os músculos da perna é grande, a recuperação pode levar vários meses e, em alguns casos, mais de um ano. Se o tempo passa sem nenhum sinal de melhora, é importante fazer uma nova avaliação.

Todo pé caído precisa de cirurgia?

Não. Muitos casos melhoram com órtese, fisioterapia e acompanhamento. A cirurgia é considerada quando não há recuperação no tempo esperado, quando o nervo foi cortado ou quando algo comprime o nervo.

Quando fazer a eletroneuromiografia?

Em geral, de 3 a 4 semanas depois da lesão, porque antes disso o exame pode não mostrar toda a extensão do problema. O médico indica o melhor momento para o seu caso.

Posso voltar ao futebol, ao jiu-jitsu ou à moto?

Depende da recuperação da força, do equilíbrio e da segurança do pé. Voltar cedo demais aumenta o risco de queda e de uma nova lesão. A liberação deve ser feita pelo médico e pela equipe de fisioterapia, caso a caso.

Lesão no quadril ou na coluna também causa pé caído?

Sim. Uma lesão do nervo ciático no quadril ou a compressão da raiz L5 na coluna lombar também podem causar pé caído. O exame clínico e a eletroneuromiografia ajudam a descobrir onde está o problema.

Como agendar uma consulta com o Dr. Thomas Marcolini?

Atendo em Curitiba e em São Paulo, de forma presencial, e também por teleconsulta. Os atendimentos são particulares. Para agendar, fale com a equipe pelo WhatsApp.

Machucou no esporte e está com pé caído?

Quanto antes o nervo for avaliado, mais opções de tratamento existem. Agende uma consulta presencial, em Curitiba ou em São Paulo, ou faça uma teleconsulta.

Dr. Thomas Marcolini

Neurocirurgião que atua em nervos periféricos

CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510
CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003

Aviso importante: este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica. Cada lesão de nervo é diferente: só uma avaliação com exame clínico e exames complementares pode indicar o melhor tratamento para o seu caso. Nenhum resultado de tratamento pode ser garantido.

Fontes (PubMed)

  1. Moran J, et al. Examining the bone bruise patterns in multiligament knee injuries with peroneal nerve injury. Am J Sports Med. 2022;50(6):1618-1626. doi:10.1177/03635465221087406
  2. Garcia-Fernandez J, et al. Common peroneal nerve injury after tibial plateau fractures: a case series. Trauma Case Rep. 2023;47:100916. doi:10.1016/j.tcr.2023.100916
  3. Liu Z, et al. Incidence of traumatic sciatic nerve injury in patients with acetabular fractures and factors affecting recovery. J Orthop Surg Res. 2023;18(1):35. doi:10.1186/s13018-023-03515-z
  4. Orunoğlu M, et al. Outcomes of posterior tibial tendon transfer in patients with foot drop. World Neurosurg. 2025;202:124415. doi:10.1016/j.wneu.2025.124415

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Dr. Thomas Marcolini, especialista em nervos periféricos

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