

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Cirurgia para recuperar o ombro após lesão do plexo braquial

Por que o ombro perde a força na lesão do plexo braquial?
O plexo braquial é o conjunto de nervos que sai do pescoço e leva os comandos do cérebro para o ombro, o braço e a mão. Nas lesões mais comuns, quase sempre causadas por acidente de moto, as raízes de cima (C5 e C6) são as mais atingidas. São justamente elas que comandam os músculos do ombro.
Por isso, muitos pacientes ficam com o ombro caído, sem conseguir levantar o braço para o lado nem girá-lo para fora. O músculo mais afetado é o deltoide, que dá o formato arredondado do ombro e é o principal responsável por levantar o braço.
A boa notícia: em casos bem indicados, existem cirurgias de nervo que podem devolver parte importante desse movimento. Neste artigo você vai entender como elas funcionam, quem pode fazer e o que ajuda na recuperação.

Quais cirurgias podem ajudar a recuperar o ombro?
A técnica mais usada hoje é a transferência nervosa. A ideia é simples: um nervo saudável, que tem uma "sobra" de função, é ligado ao nervo do músculo que parou de funcionar. É como puxar uma extensão de uma tomada que tem energia para outra que ficou sem.
Para o ombro, existem três caminhos principais, que podem ser usados sozinhos ou combinados:
Nervo acessório → nervo supraescapular
Usa um ramo do nervo do trapézio para reativar o supraespinal e o infraespinal, músculos que ajudam a iniciar a elevação do braço e a girar o ombro para fora.
Foco: estabilidade e rotaçãoRamo do tríceps → nervo axilar
Usa um dos ramos do nervo do tríceps para reativar o deltoide, o principal músculo para levantar o braço. É a chamada cirurgia de Somsak.
Foco: força para levantar o braçoEnxerto a partir da raiz C5
Quando uma raiz do pescoço ainda está em boas condições, ela pode ser ligada aos nervos do ombro por meio de enxertos de nervo.
Depende do que é encontrado na cirurgiaEm muitos casos, as opções 1 e 2 são feitas juntas (transferência dupla). A escolha depende do tipo de lesão, do tempo desde o trauma e dos exames de cada paciente.
A transferência do tríceps para o deltoide (cirurgia de Somsak)
Uma das transferências mais conhecidas, e com bons resultados descritos na literatura médica, é a do ramo do nervo do tríceps para o nervo axilar, o nervo que comanda o deltoide. Ela foi descrita pelo cirurgião tailandês Somsak Leechavengvongs e, por isso, também é chamada de cirurgia de Somsak.
Muitas vezes ela é feita junto com a transferência do nervo acessório para o supraescapular. Juntas, as duas buscam um ombro mais estável e com mais força para levantar o braço.

Por que usar justamente o nervo do tríceps?
- Proximidade: o nervo do tríceps e o nervo axilar passam muito perto um do outro, na parte de trás do braço. Isso permite uma ligação direta, sem enxerto, e deixa o novo nervo mais perto do músculo que precisa voltar a funcionar.
- Os músculos já trabalham juntos: quando fazemos força com o tríceps para esticar o braço, parte do deltoide também é ativada. Como o cérebro já conhece essa parceria, fica mais fácil aprender a usar o novo comando depois da cirurgia.


Vou perder a força do tríceps?
Essa é a dúvida mais comum no consultório. O tríceps tem três partes (cabeças), e cada uma recebe um ramo de nervo diferente. Na cirurgia, usamos apenas um desses ramos. Os outros dois continuam funcionando normalmente.
Na prática, a perda de força no tríceps costuma ser pequena e, na maioria dos casos, o paciente não sente diferença no dia a dia. Em troca, ganha a chance de voltar a levantar o braço. Veja o esquema:
Esquema simplificado: os 3 ramos do nervo do tríceps
Resultado: o cotovelo continua esticando e o deltoide recebe um novo "fio de energia" para voltar a levantar o braço.

Quem pode fazer a cirurgia de transferência nervosa no ombro?
Nem todo paciente tem indicação. A imagem acima resume os pontos principais. Para que a transferência tenha boa chance de funcionar, é importante que:
- O tempo de lesão seja curto: o ideal é operar entre 3 e 6 meses após o trauma e, no máximo, por volta de 1 ano. Depois disso, o músculo parado vai perdendo a capacidade de receber um novo nervo.
- O tríceps esteja forte: só dá para "doar" energia de um nervo que funciona bem.
- O ombro não esteja melhorando sozinho: isso é confirmado com exame físico repetido, eletroneuromiografia e exames de imagem, como a ressonância com neurografia.
Por isso, a avaliação precoce com um cirurgião de nervos faz muita diferença. Esperar "para ver se melhora" além do prazo pode fechar a janela da cirurgia.
5 dicas úteis para quem tem lesão do plexo braquial
Pequenas atitudes fazem diferença no resultado, com ou sem cirurgia:
1. Procure um cirurgião de nervos cedo
Quanto antes a avaliação, mais opções de tratamento. O ideal é ser avaliado nas primeiras semanas ou meses após o acidente, e não esperar um ano "para ver se melhora".
2. Não deixe o braço "travar"
Faça todos os dias movimentos passivos do ombro, cotovelo, punho e dedos, com orientação do fisioterapeuta. Uma articulação rígida atrapalha o resultado, mesmo quando o nervo volta.
3. Proteja o ombro
Quando indicada, a tipoia diminui o peso do braço sobre o ombro e reduz o risco de o ombro sair do lugar (subluxação). Use pelo tempo que o seu médico orientar.
4. Faça os exames no tempo certo
A eletroneuromiografia e a ressonância com neurografia mostram se o nervo está se recuperando e ajudam a decidir se e quando operar. Guarde todos os laudos.
5. Tenha paciência e mantenha a fisioterapia
O nervo cresce devagar, cerca de 1 mm por dia. Os primeiros sinais costumam surgir após alguns meses e o resultado final pode levar de 1 a 2 anos. No começo, o fisioterapeuta ensina a "pensar em esticar o cotovelo" para ativar o ombro.
Assista: o Dr. Thomas Marcolini explica
Dois vídeos curtos do canal sobre a recuperação do ombro e os cuidados com o braço:
Transferência nervosa: recuperando o ombro após lesão de plexo braquial
Lesão de plexo braquial: seu braço vai travar se você não fizer isso
Perguntas frequentes
A transferência nervosa garante que o ombro volte ao normal?
Não. O objetivo é recuperar parte importante da força e do movimento, mas o resultado varia de pessoa para pessoa. Ele depende do tempo de lesão, da idade, da qualidade dos nervos doadores e da dedicação à fisioterapia. Não existe garantia de resultado.
Até quando posso fazer a cirurgia depois do acidente?
O ideal é entre 3 e 6 meses após a lesão. Em geral, o limite fica por volta de 1 ano, porque depois disso o músculo parado perde a capacidade de receber um novo nervo. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Quanto tempo demora para o ombro voltar a mexer?
Os primeiros sinais de contração costumam aparecer alguns meses após a cirurgia. A força continua melhorando por 1 a 2 anos, com fisioterapia regular.
Vou perder a força para esticar o cotovelo?
Em geral, não de forma importante. Usamos apenas um dos três ramos do nervo do tríceps; os outros dois continuam funcionando e mantêm a extensão do cotovelo.
Por onde a cirurgia é feita?
A transferência do tríceps para o deltoide costuma ser feita por um corte na parte de trás do ombro e do braço, onde os nervos ficam próximos. A técnica exata depende de cada caso.
Quais exames devo levar na consulta?
Eletroneuromiografia, ressonância (de preferência com neurografia do plexo braquial), laudos de cirurgias anteriores e, se possível, vídeos curtos mostrando o movimento do braço.
Bebês com lesão do plexo braquial no parto podem fazer essa cirurgia?
A paralisia braquial obstétrica tem avaliação e prazos próprios. Também existem cirurgias de nervo para o ombro nesses casos, e a indicação é feita após avaliação especializada.
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Sobre o autor
Dr. Thomas Ribeiro Marcolini
Neurocirurgião que atua em nervos periféricos
Atendimento em Curitiba, em São Paulo e por teleconsulta, em português, inglês e espanhol. Avalia lesões do plexo braquial e indica, quando possível, cirurgias de nervo para recuperar o movimento do ombro, do cotovelo e da mão.
Agendar avaliação pelo WhatsAppFontes
- Leechavengvongs S, et al. Combined nerve transfers for C5 and C6 brachial plexus avulsion injury. J Hand Surg Am. 2006;31(2):183-9. DOI
- Colbert SH, Mackinnon S. Posterior approach for double nerve transfer for restoration of shoulder function in upper brachial plexus palsy. Hand (N Y). 2006;1(2):71-7. DOI

