

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Avulsão do Plexo Braquial: o que é, tipos, dor na mão e tratamento
Recebeu o laudo da ressonância ou da eletroneuromiografia com a palavra avulsão e ficou assustado? Calma. Neste guia, em linguagem simples, você vai entender o que é a avulsão do plexo braquial, a diferença entre avulsão total e avulsão parcial, o que acontece com o movimento da mão, como tratar a dor e por que o tempo é tão importante para a cirurgia.
Resumo em 30 segundos
- Avulsão é quando a raiz do nervo é arrancada da medula. É a lesão mais grave do plexo braquial.
- Não melhora sozinha: o tratamento é cirúrgico, com transferência de nervos, de preferência nos primeiros 3 a 6 meses.
- A avulsão parcial tem prognóstico melhor que a avulsão total.
- Na avulsão total, a volta dos movimentos finos da mão é muito limitada; a cirurgia prioriza cotovelo e ombro.
- A dor forte na mão é comum e tem tratamento; nos casos resistentes, a DREZotomia é uma opção.

O que é avulsão do plexo braquial?
O plexo braquial é o conjunto de nervos que sai da medula, no pescoço, e leva força e sensibilidade para o ombro, o braço e a mão. Ele é formado por 5 raízes: C5, C6, C7, C8 e T1.
Pense numa árvore: o tronco é a medula e os galhos são as raízes. No estiramento, o galho é machucado, mas continua preso. Na ruptura, ele quebra no meio do caminho. Já na avulsão, o galho é arrancado direto do tronco.
Por isso a avulsão é o tipo mais grave de lesão do plexo braquial: a raiz se soltou da medula e não dá para "colar" de volta. Para recuperar movimentos, o cirurgião usa um nervo saudável doador como nova fonte de energia — é a chamada transferência de nervo (neurotização).

Como saber se tive avulsão? Sinais e exames
Alguns sinais fazem o médico suspeitar de avulsão já nas primeiras semanas após o trauma:
- Dor muito forte na mão, em queimação, choque ou aperto, mesmo com o braço sem movimento;
- Pálpebra caída e pupila menor do mesmo lado do braço (síndrome de Horner), que sugere avulsão das raízes de baixo (C8 e T1);
- Escápula "saltada" (alada) ou fraqueza dos músculos das costas perto da coluna;
- Braço inteiro sem força e sem sensibilidade depois de um trauma de alta energia, como acidente de moto.
Os principais exames são a ressonância magnética do plexo braquial (pode mostrar a pseudomeningocele, uma "bolsa" de líquido no local onde a raiz saiu), a eletroneuromiografia (mais confiável a partir de 3 a 4 semanas do trauma) e, em alguns casos, a mielotomografia.
Dica: nenhum exame é 100% sozinho. O diagnóstico junta o exame físico, os exames de imagem e a eletroneuromiografia. Leve todos os laudos e as imagens (CD ou link) na consulta.
Vídeo curto: quais os melhores exames?
Dr. Thomas Marcolini explica quais exames ajudam a confirmar a lesão do plexo braquial.
Avulsão total ou parcial: por que isso muda tudo
Nem todo paciente com avulsão recebe a mesma cirurgia, no mesmo tempo. O que mais pesa no resultado é quantas raízes foram arrancadas e quais são elas. Quanto mais raízes avulsionadas, mais grave a lesão e menos nervos doadores sobram para a reconstrução.

Avulsão parcial: o melhor prognóstico
Na avulsão parcial, só parte das raízes foi arrancada e as outras estão preservadas (inteiras ou apenas estiradas). É a situação mais favorável, porque sobram nervos vizinhos saudáveis que podem servir de doadores bem perto do músculo que precisa voltar a funcionar.
- Avulsão alta (C5-C6 ou C5-C7): ombro e cotovelo ficam fracos, mas a mão costuma funcionar. Transferências como a de Oberlin (parte do nervo ulnar para o bíceps) e do ramo do tríceps para o nervo axilar costumam trazer bons resultados para dobrar o cotovelo e levantar o braço, quando feitas no tempo certo.
- Avulsão baixa (C8-T1): ombro e cotovelo funcionam, mas a mão perde força e destreza. Transferências de nervo e de tendão podem melhorar a pinça e a preensão.
Por que o prognóstico é melhor? Há mais nervos doadores, a distância até o músculo é menor e o braço ainda ajuda no dia a dia. Mesmo assim, cada caso é avaliado de forma individual e não existe garantia de resultado.
Avulsão total (C5 a T1): e o movimento da mão?
Na avulsão total, as 5 raízes foram arrancadas. O braço fica pendurado, sem força e sem sensibilidade, do ombro aos dedos. É a forma mais grave e a mais difícil de tratar.
Falando com sinceridade sobre a mão: em adultos, recuperar os movimentos finos da mão (pinça, abrir e fechar os dedos com destreza) depois de uma avulsão total é muito difícil. O caminho entre o nervo doador e a mão é longo, e os pequenos músculos da mão não aguentam esperar tanto tempo sem nervo.
Por isso, a cirurgia prioriza o que tem mais chance de funcionar:
- Dobrar o cotovelo, para levar a mão à boca e apoiar objetos;
- Estabilizar o ombro e evitar que ele "caia" (subluxação);
- Sensibilidade protetora em parte da mão, para evitar queimaduras e ferimentos.
Em casos selecionados, técnicas mais avançadas, como a transferência muscular livre (por exemplo, o músculo grácil, da coxa) ou o uso da raiz C7 do lado saudável, podem dar uma preensão grosseira, ou seja, fechar a mão para segurar algo. São cirurgias longas, com reabilitação de anos, e o resultado varia muito de pessoa para pessoa.
Quadro comparativo: avulsão parcial x avulsão total
Avulsão parcial
- Raízes arrancadas
- De 1 a 4 raízes
- Mão
- Costuma funcionar nas lesões altas (C5-C6 ou C5-C7)
- Nervos doadores
- Vizinhos, do próprio plexo, perto do músculo
- Objetivo da cirurgia
- Dobrar o cotovelo, levantar o braço e, se preciso, melhorar a mão
- Prognóstico
- Melhor
Avulsão total (C5 a T1)
- Raízes arrancadas
- As 5 raízes
- Mão
- Sem movimento; a volta dos movimentos finos é muito limitada
- Nervos doadores
- De fora do plexo: acessório, intercostais, frênico ou C7 do lado saudável
- Objetivo da cirurgia
- Cotovelo e estabilidade do ombro; em casos selecionados, preensão grosseira
- Prognóstico
- Mais reservado
Dor na mão após avulsão: tratamento com DREZotomia
A dor é uma das partes mais difíceis da avulsão. Muitos pacientes descrevem queimação, choques, sensação de esmagamento, aperto ou "mordida" na mão, mesmo sem sentir nada quando tocam o braço. Isso acontece porque, quando a raiz é arrancada, a medula deixa de receber os sinais do braço e os neurônios da região passam a disparar sozinhos (dor por desaferentação).
Como é o tratamento, passo a passo:
- Remédios para dor neuropática (como gabapentina, pregabalina, duloxetina ou amitriptilina), sempre com prescrição e acompanhamento médico;
- Reabilitação e fisioterapia, que ajudam na dor e no movimento;
- Cirurgia de reconstrução do plexo, que em alguns pacientes também reduz a dor;
- DREZotomia, quando a dor continua forte apesar do tratamento correto.
O que é a DREZotomia? É uma cirurgia feita na medula, no pescoço, na chamada "zona de entrada das raízes" (DREZ, na sigla em inglês). É justamente o local onde as raízes foram arrancadas e onde a dor é gerada. Com microscópio e monitorização neurofisiológica, o cirurgião desliga esse "curto-circuito".
Em uma revisão com 917 pacientes, cerca de 7 em cada 10 tiveram redução importante da dor no seguimento (Shekouhi e colaboradores, Neurosurgery, 2024). Como toda cirurgia, ela tem riscos, por exemplo alteração de força ou de sensibilidade na perna do mesmo lado, que são explicados na consulta. É indicada para pacientes bem selecionados e não garante alívio completo.
Assista: Drezotomia: alívio para a dor por avulsão do plexo braquial

Quando operar a avulsão? O tempo é decisivo
A avulsão não melhora sozinha. Por isso, depois de confirmada, a recomendação costuma ser operar cedo, em geral nos primeiros 3 a 6 meses após o trauma. Com o tempo, o músculo sem nervo vai atrofiando e perde a capacidade de receber um nervo novo. Depois de cerca de 12 a 18 meses, as transferências de nervo perdem muito da chance de funcionar.
Já passou desse prazo? Ainda podem existir opções, como transferências de tendão e de músculo, além do tratamento da dor. Vale sempre uma avaliação individual.
Assista: recuperação da cirurgia de plexo braquial
Neste vídeo, o Dr. Thomas Marcolini explica o que esperar da recuperação e por que o tempo e a reabilitação fazem diferença.
8 dicas úteis para quem tem avulsão do plexo braquial
Guarde todos os exames
Laudos, imagens (CD ou link) e a data do acidente. Isso agiliza a avaliação e a decisão.
Não espere "para ver se volta"
Se há suspeita de avulsão, procure um cirurgião de nervos periféricos o quanto antes. O tempo é decisivo.
Mantenha as articulações soltas
Faça fisioterapia todos os dias para ombro, cotovelo, punho e dedos. Articulação travada atrapalha o resultado da cirurgia.
Use a tipoia do jeito certo
Ela protege o ombro de “cair” (subluxação), mas use conforme a orientação, sem deixar o braço parado o tempo todo.
Proteja a pele sem sensibilidade
Teste a água do banho com a outra mão e cuidado com fogão, ferro de passar e objetos quentes ou cortantes.
Dor forte não é para aguentar calado
Existem remédios específicos e cirurgias para a dor. Conte ao seu médico como ela é e quanto atrapalha.
Pare de fumar
O cigarro prejudica a circulação e a regeneração dos nervos.
Cuide da cabeça também
Apoio psicológico e contato com outros pacientes ajudam muito na reabilitação, que é longa.
Perguntas frequentes sobre avulsão do plexo braquial
Avulsão do plexo braquial tem cura?
A raiz arrancada não volta a se ligar à medula. Mas a cirurgia (transferências de nervo, de tendão ou de músculo) pode recuperar funções importantes, como dobrar o cotovelo e estabilizar o ombro. O resultado depende de quantas raízes foram afetadas e do tempo até a cirurgia.
Qual é o prazo ideal para operar a avulsão?
Em geral, nos primeiros 3 a 6 meses após o trauma. Depois de 12 a 18 meses, as transferências de nervo perdem muito da eficácia e outras técnicas, como transferências de tendão e de músculo, passam a ser consideradas.
Vou voltar a mexer a mão depois da avulsão?
Na avulsão parcial alta (C5-C6), a mão costuma funcionar. Na avulsão total, recuperar os movimentos finos da mão é muito difícil; em casos selecionados, é possível ganhar uma preensão grosseira, ou seja, fechar a mão para segurar objetos.
Por que a avulsão parcial tem melhor prognóstico?
Porque sobram raízes saudáveis que servem de nervos doadores bem perto dos músculos que precisam voltar a funcionar. Isso encurta o caminho da regeneração e aumenta a chance de bons resultados.
A fisioterapia sozinha resolve a avulsão?
Não. A fisioterapia é essencial para manter as articulações soltas e treinar os músculos depois da cirurgia, mas não religa a raiz arrancada.
O que é DREZotomia e quando ela é indicada?
É uma cirurgia na medula, no local de entrada das raízes, indicada para a dor forte por avulsão que não melhora com remédios e reabilitação. Revisões científicas mostram redução importante da dor em cerca de 7 a cada 10 pacientes, sem garantia de alívio completo.
A dor da avulsão passa sozinha?
Em parte dos pacientes ela diminui com o tempo, mas em muitos persiste por anos. Por isso, o tratamento da dor deve começar cedo.
Dr. Thomas Marcolini
Neurocirurgião que atua em nervos periféricos, com atendimento em Curitiba, São Paulo e por teleconsulta.
CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510
CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003
Agendar avaliação pelo WhatsAppAviso importante: este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso de avulsão do plexo braquial precisa de avaliação individual. Não há garantia de resultado em nenhum tratamento.
Fontes:
- Bradaschia L, Heinen C. Motor nerve transfers in complete and incomplete brachial plexus injuries: a state-of-the-art review. Neurol Int. 2026. doi:10.3390/neurolint18060103
- Shekouhi R, et al. The safety and efficacy of dorsal root entry zone lesioning for pain management in patients with brachial plexus avulsion: a systematic review and meta-analysis. Neurosurgery. 2024;95(2):259-274. doi:10.1227/neu.0000000000002906
- de Mendonça Cardoso M, et al. Retrospective study of 57 patients submitted to DREZ lesioning by radiofrequency for brachial plexus avulsion pain. World Neurosurg. 2023;177:e466-e471. doi:10.1016/j.wneu.2023.06.077
- Mongardi L, et al. Long term results of DREZ lesions for the treatment of intractable pain: a systematic review of the literature on 1242 cases. Clin Neurol Neurosurg. 2021;210:107004. doi:10.1016/j.clineuro.2021.107004
Atualizado em outubro de 2026.

