

Dr. Thomas Marcolini - Neurocirurgião para Lesões de Nervos
Pé Caído tem cura? Entenda as causas e como tratar!
Você está tropeçando, arrastando a ponta do pé no chão ou precisa levantar muito o joelho para andar? Isso tem nome: pé caído.
O pé caído é a dificuldade de levantar a parte da frente do pé. Ele não é uma doença em si. É um sinal de que algo está atrapalhando o caminho entre o cérebro e o músculo: o nervo, a coluna ou o próprio músculo.
Neste guia, em linguagem simples, você vai entender as causas, como é feito o diagnóstico, quais são os tratamentos e o que pode fazer hoje para andar com mais segurança.
Resposta rápida: pé caído tem cura?
Depende da causa, da gravidade da lesão e do tempo até o tratamento. Quando o nervo está só comprimido e o problema é tratado cedo, a recuperação pode ser boa. Quando a lesão é grave ou antiga, o objetivo passa a ser recuperar o máximo de força e de segurança ao andar, com órtese, fisioterapia e, quando indicado, cirurgia.
Voltar exatamente ao que era antes nem sempre é possível, mas melhorar costuma ser.
No vídeo, o Dr. Thomas Marcolini explica as principais causas do pé caído.
O que é o pé caído e por que ele atrapalha tanto
Para dar um passo, você levanta a ponta do pé. Esse movimento se chama dorsiflexão do pé. Quando ele se perde, a ponta do pé fica caída e passa a bater ou a arrastar no chão. Para compensar, o corpo encontra outro caminho: a pessoa levanta o joelho mais alto ou joga a perna para o lado.
A dorsiflexão protege você de tropeços, evita que você machuque os dedos e dá segurança para caminhar mais rápido, subir escadas e correr. Sem ela, tudo isso fica mais difícil e o risco de queda aumenta.
Sinais mais comuns do pé caído
Ponta do pé arrastando
Os dedos raspam no chão a cada passo. O tênis ou o sapato gasta mais na ponta.
Tropeços e quedas
Qualquer degrau, tapete ou calçada irregular vira risco de queda.
Joelho levantado demais
Para o pé não arrastar, você levanta o joelho mais alto ou joga a perna para o lado. Esse jeito de andar se chama marcha escarvante.
Barulho de “tapa” no chão
O pé bate no chão com força logo depois que o calcanhar toca o piso.
Formigamento ou dormência
Costuma aparecer na lateral da perna e no dorso do pé, que é a parte de cima do pé.
Escadas e corrida mais difíceis
Andar rápido, correr e subir escadas ficam mais cansativos e inseguros.

Principais causas do pé caído
O pé caído pode ter origem em lugares diferentes do corpo: no nervo, na coluna, nos músculos ou no cérebro. Descobrir exatamente onde está o problema é o passo mais importante, porque é a causa que define o tratamento.
Veja abaixo as causas mais comuns, da mais frequente para as menos frequentes.

Lesão ou compressão do nervo fibular (peroneal)
É a causa mais comum. O nervo passa rente ao osso, na lateral do joelho, e fica bem exposto. Pode ser lesado por pancada ou torção no joelho (como no futebol), fratura, cirurgia no joelho, gesso ou tala apertados. Também pode ser comprimido por pressão repetida, como cruzar as pernas por muito tempo ou ficar deitado na mesma posição por dias, e por cistos ou tumores de nervo.
Lesão do nervo ciático
O ciático dá origem ao nervo fibular. Quando ele é lesado, por exemplo depois de cirurgia no quadril, fratura da bacia ou do fêmur, ou injeção na região do glúteo, o pé caído aparece e pode vir junto com dor e perda de sensibilidade. Se a parte tibial do nervo também é afetada, a fraqueza atinge ainda a flexão do pé e dos dedos.
Problemas na coluna lombar
Hérnia de disco ou estreitamento do canal podem comprimir a raiz do nervo que levanta o pé. Costuma vir com dor nas costas ou na perna.
Neuropatias
Diabetes e doenças como a Charcot-Marie-Tooth podem enfraquecer os nervos das pernas, muitas vezes dos dois lados.
Doenças do cérebro e da medula
AVC, esclerose múltipla e lesões da medula também causam pé caído. Nesses casos o tratamento é diferente: envolve reabilitação e, em alguns pacientes, cirurgias que ajudam a tratar as sequelas, como o pé equino por espasticidade.
Internação longa e UTI
Quem fica muito tempo internado, principalmente na UTI ou depois de infecções graves como a COVID-19, pode ter fraqueza nos nervos ou compressão do nervo fibular pela posição na cama.

Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa na conversa e no exame físico. O médico avalia a força do pé e dos dedos, a sensibilidade, os reflexos e o seu jeito de andar. Dependendo do caso, ele também pede exames:
Eletroneuromiografia
Mostra se o problema está no nervo ou no músculo, em que lugar e com que gravidade. Em lesões recentes, o exame pode precisar de algumas semanas para mostrar o quadro completo. O médico define o melhor momento.
Ressonância magnética
Avalia a coluna, o joelho, o trajeto do nervo e a presença de tumores ou cistos.
Ultrassom de nervos
Mostra o nervo em detalhe: compressões, neuromas (cicatrizes do nervo) e se ele está interrompido.
Raio-X e exames de sangue
O raio-X mostra ossos e alinhamento. Os exames de sangue ajudam a investigar diabetes e outras doenças que afetam os nervos.
Dica útil: exames de imagem de nervos dependem muito de quem faz e de quem interpreta. Sempre que possível, procure um radiologista com experiência em nervos periféricos. Leve todos os exames anteriores e anote a data em que os sintomas começaram.
Procure atendimento urgente se...
- o pé caiu de repente, principalmente depois de uma cirurgia, de um trauma ou de uma injeção;
- o pé caído vier junto com fraqueza no rosto ou no braço, fala enrolada ou confusão. Pode ser AVC: ligue para o SAMU, 192;
- houver dor forte nas costas com fraqueza nas duas pernas, ou perda de controle da urina ou das fezes. Vá ao pronto-socorro.
Tratamento do pé caído: o caminho passo a passo
Não existe um tratamento único. O plano muda conforme a causa, a gravidade e o tempo de lesão. De forma geral, o caminho segue esta ordem:
Tratar a causa
Descomprimir o nervo, tratar a hérnia de disco, controlar o diabetes, tirar a pressão sobre o joelho. Muitas vezes, só isso já melhora o quadro.
Proteger o pé e manter o movimento
Use órtese para não tropeçar e faça fisioterapia para manter o tornozelo flexível e os músculos ativos enquanto o nervo se recupera.
Cirurgia no nervo, quando indicada
É considerada quando o nervo está muito apertado, interrompido ou não melhora no tempo esperado. Pode ser descompressão, reparo direto, enxerto ou transferência de nervo. Estudos mostram melhores resultados quando a cirurgia é feita mais cedo e o nervo não está totalmente interrompido.
Transferência de tendão, nos casos antigos ou sem recuperação
Um tendão saudável, geralmente o tibial posterior, é mudado de lugar para passar a levantar o pé. Pode ser feita sozinha ou junto com a cirurgia do nervo.
O tempo importa. O músculo que fica muito tempo sem receber o sinal do nervo perde, aos poucos, a capacidade de se recuperar. Por isso, quanto antes a causa for investigada, melhores são as chances.
Órtese para pé caído: para que serve
A órtese é um apoio, geralmente de plástico ou de fibra de carbono, que segura o pé em boa posição. Ela ajuda você a andar sem tropeçar, evita que o tendão de Aquiles encurte (a chamada retração do calcanhar) e facilita a reabilitação.

Tipos mais comuns de órtese
Calha suropodálica (AFO)
Envolve a perna, o tornozelo e o pé. Dá firmeza e pode ser articulada. É a mais usada.
Órtese tipo mola (Spring Leaf)
Funciona como uma mola que ajuda a levantar o pé a cada passo. É mais discreta e cabe dentro do calçado e da calça.
Órtese noturna
Mantém o pé em posição reta durante o sono, para evitar a retração. Não serve para caminhar. Só é usada quando o médico indica.
Cuidados com a órtese
- Use só com indicação. Órtese mal indicada ou mal ajustada pode machucar a pele e atrapalhar a reabilitação.
- Olhe a pele todos os dias. Vermelhidão que não some cerca de 30 minutos depois de tirar a órtese pede ajuste.
- Use meia sem costura e sapato fechado, de um número que acomode bem a órtese.
- Órtese à noite? Em alguns casos, sim. Pergunte ao seu médico.
Quer comparar modelos? Leia o nosso guia: Qual a melhor órtese para o pé caído.
Pé caído volta ao normal?
Primeiro, vale perguntar: o que é “normal” para você? Em lesões leves, é possível voltar muito perto do que era antes. Nas lesões graves ou antigas, ficar exatamente como antes é difícil. Mas, se “normal” significa estar melhor do que você está hoje, o tratamento correto pode ajudar sim.
O que mais pesa no resultado:
- a causa da lesão;
- a gravidade: nervo apertado, machucado ou totalmente cortado;
- o tempo desde o início dos sintomas;
- a idade e a saúde geral;
- começar o tratamento cedo.
Quer entender melhor? Leia: Vou recuperar 100% do meu pé caído?

Cirurgias para pé caído: quais existem
Várias cirurgias podem melhorar o pé caído. A escolha depende da causa, da gravidade e do tempo de lesão. Às vezes é preciso combinar mais de uma.
Descompressão do nervo fibular
Indicada em casos mais leves, em que o nervo não foi cortado e a lesão é recente. Em alguns pacientes, só ela já resolve.
Reconstrução do nervo
Retira a parte lesada e refaz a passagem do sinal por microcirurgia, com reparo direto ou enxerto. Em lesões graves, costuma ser preciso associar a transferência de tendão.
Cirurgia no nervo ciático
Indicada quando a causa está mais acima, na região do quadril ou da coxa, principalmente se há dor ou perda importante de sensibilidade. Em geral, é associada à transferência de tendão.
Transferência do tendão tibial posterior
Muda o tendão de lugar para levantar o pé. Pode ser associada a um pequeno parafuso (calcâneo-stop) que protege o retropé. Dá mais segurança para caminhar, tem resultado mais rápido que a cirurgia do nervo e pode ser feita junto com ela.
Revisões científicas mostram melhora funcional na maioria dos pacientes operados, mas o resultado varia de pessoa para pessoa. Toda cirurgia tem riscos, e a indicação é sempre individual, depois de consulta e exames.
Fisioterapia e reabilitação
A fisioterapia faz parte do tratamento, antes e depois de qualquer cirurgia. Ela não “religa” o nervo sozinha, mas mantém o tornozelo solto e os músculos prontos para quando o sinal voltar. Em geral, o trabalho inclui:
- alongamento da panturrilha e do tendão de Aquiles, para evitar o encurtamento;
- fortalecimento dos músculos que ainda funcionam;
- treino de marcha e de equilíbrio;
- estimulação elétrica, quando o médico ou o fisioterapeuta indicam;
- terapia ocupacional e orientações para o dia a dia.

8 dicas para andar com mais segurança
Calce sapatos fechados e firmes
Evite chinelos e sandálias. Eles saem do pé e aumentam o risco de tropeço.
Deixe o caminho livre
Tire tapetes soltos e fios do chão. Mantenha a casa bem iluminada, principalmente à noite.
Cuidado nas escadas
Use o corrimão. Para subir, comece pela perna boa. Para descer, comece pela perna com o pé caído.
Alongue todos os dias
Alongue a panturrilha como o fisioterapeuta orientar. Isso evita que o calcanhar “encurte”.
Evite pressão no joelho
Não cruze as pernas por muito tempo e evite apoiar a lateral do joelho em superfícies duras.
Cuide da pele e dos pés
Olhe os pés e a perna todos os dias, principalmente se você tem diabetes ou perda de sensibilidade.
Use a órtese como orientado
Respeite o tempo e os horários combinados com o seu médico e use sempre meia sem costura.
Não espere para investigar
Quanto antes a causa for descoberta, melhores são as chances de recuperação.

Perguntas frequentes sobre pé caído
Pé caído tem cura?
Depende da causa, da gravidade e do tempo de lesão. Quando a causa é tratada cedo, muitos pacientes melhoram bastante. Nos casos graves ou antigos, o foco é recuperar a função e a segurança ao andar, com órtese, fisioterapia e, se indicado, cirurgia.
Quanto tempo leva para melhorar?
O nervo se regenera devagar, cerca de 1 milímetro por dia. Por isso, depois de uma lesão ou de uma cirurgia no nervo, a melhora pode levar meses. O médico acompanha a evolução com exame físico e, quando preciso, com eletroneuromiografia.
Todo pé caído precisa de cirurgia?
Não. Muitos casos melhoram com o tratamento da causa, órtese e fisioterapia. A cirurgia é considerada quando há compressão que precisa ser aliviada, nervo lesado ou falta de melhora no tempo esperado.
Quando a transferência de tendão é indicada?
Em geral, quando o nervo não se recuperou ou a lesão é antiga e o músculo que levantava o pé já não tem chance de voltar. Um tendão de outro músculo passa a fazer esse movimento.
Posso usar órtese à noite?
Em alguns casos, sim. A órtese noturna evita que o pé fique caído durante o sono e que o tendão de Aquiles encurte. Use apenas com indicação do seu médico ou fisioterapeuta.
O que pode piorar o pé caído?
Deixar sem investigação, usar órtese sem orientação, cruzar as pernas por muito tempo, apoiar a lateral do joelho em superfícies duras e deixar o tornozelo ficar rígido. Veja também o artigo 4 coisas que podem piorar o seu pé caído.
Pé caído depois de AVC tem tratamento?
Sim. Depois de um AVC, o pé pode cair por causa da espasticidade, quando os músculos ficam muito rígidos. Atendo esses pacientes, e existem cirurgias que ajudam a tratar as sequelas, como no pé equino. A indicação depende de avaliação individual.
O senhor atende pacientes de fora de Curitiba?
Sim. Atendo em Curitiba e em São Paulo e também por teleconsulta. Muitos pacientes vêm de outras cidades. Veja como se organizar na página de orientações aos pacientes.
Quer avaliar o seu caso?
Cada pé caído tem uma causa e um caminho diferente. Na consulta, avalio seus exames, examino a força e a sensibilidade e explico as opções para o seu caso.
Atendimento presencial em Curitiba e em São Paulo, e por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
Falar pelo WhatsApp Orientações para quem vem de fora Como funciona a teleconsulta
Leia também
Fontes consultadas
- MedlinePlus. Foot drop (pé caído). Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA.
- Mackay MJ et al. Traumatic Peroneal Nerve Injuries: A Systematic Review. JBJS Reviews, 2022.
- Park JS, Casale MJ. Posterior Tibial Tendon Transfer for Common Peroneal Nerve Injury. Clinics in Sports Medicine, 2020.
- Saaiq M. Presentation and management outcome of foot drop with tibialis posterior tendon transfer. World Journal of Orthopedics, 2024.
Aviso: este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual, e os resultados variam de pessoa para pessoa.
Dr. Thomas Marcolini, neurocirurgião que atua em nervos periféricos
CRM/PR 33811 · RQE/PR 26510 | CRM/SP 241641 · RQE/SP 113003
Conteúdo atualizado em outubro de 2026.

